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Prelo

Foto do escritor: URRO
URRO
há 6 dias
2 min de leitura

Atualizado: há 4 dias


Todos os gestos do fogo

Por Vanessa Malagó


A cidade vira o mundo. O ir e vir amortece. Ou não.


Atravessando a rua, atento aos próprios passos, ou talvez nem isso, é possível que Guto não veja os ipês brancos de pronto. Entre os galhos retorcidos, irrompem flores misteriosas. Na véspera não se via vestígio.


Ao segundo dia, seguindo o fluxo dos que cruzam a esquina preocupados com suas próprias vidas, ao passar por debaixo de um deles, e se o passo não for muito largo, nem muito rápido, é capaz que agora ele perceba algo. É possível que note os pequenos flocos de neve pendulando no ar. Talvez, então, freie o andar, se esqueça da pressa e se atenha em maravilhamento. Os olhos erguidos ao céu, impregnado de um branco urgente.


No terceiro dia, habituado ao chão por onde passam seus pés, atravessa o tapete branco pisando suave, esperando a chuva de pétalas translúcidas.


Ao quarto dia, sai minutos antes, armando ângulos e enquadramentos. Dobra a rua, já tomando o celular do bolso. Mas então, sobram apenas as poucas pétalas ainda imaculadas no chão, o restante da calçada pisada e repisada. A beleza efêmera já ressequida, dando vista aos galhos de sempre, aqueles que quase nunca se vê. Posiciona a câmera mesmo assim e registra. Para não esquecer. (trecho do livro)


A obra


Todos os gestos do fogo acompanha três personagens que, em diferentes momentos da vida, enfrentam o vazio, a dor e o amor, enquanto tentam descobrir quem são e o que mantém acesa a própria chama.


A narrativa entrelaça as trajetórias de Pedro, professor de literatura que, ao conhecer Tonia em um clube de leitura, passa a questionar não apenas o amor, mas a ideia que construiu sobre si mesmo ao longo da vida; de Tonia, bailaora de flamenco que encontra na dança um caminho de pertencimento e liberdade; e de Guto, jovem aparentemente bem-sucedido, que enfrenta um vazio persistente.


Ao longo do romance, a literatura torna-se espaço de diálogo interior, enquanto a dança representa o movimento permanente de aproximação, desequilíbrio e reinvenção. O fogo, elemento simbólico que percorre toda a narrativa, surge como metáfora do desejo, da transformação, da impermanência e da vontade de viver.


Ao construir personagens complexos e profundamente humanos, Vanessa Malagó mostra que os processos de mudança nunca acontecem de forma isolada. Pais, mães, irmãos, filhos e amigos tornam-se espelhos, tensores e catalisadores das escolhas e descobertas dos protagonistas, em uma história que convida o leitor a refletir sobre identidade, pertencimento e sobre a busca que todos empreendemos pela felicidade possível.


Vanessa Malagó nasceu em São Paulo, em 1976, e há 15 anos vive em Campinas. É formada em Publicidade pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e pós-graduada em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Atua há mais de 25 anos na área de Marketing e Comunicação. Professora e praticante de Yoga, estreou como autora com Vivenciando o Yoga Sutra: a prática do Yoga além do tapetinho (2019), obra dedicada aos fundamentos filosóficos do Yoga. Em 2023, publicou pela Editora Patuá seu primeiro romance, Torrente, contemplado pelo edital de Literatura para Obra Inédita de Ficção do PROAC. Em Todos os gestos do fogo, seu segundo romance, dá continuidade à investigação literária sobre transformação, impermanência, desejo e busca de sentido.


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