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Prelo

  • Foto do escritor: URRO
    URRO
  • 22 de abr.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 27 de abr.

linha de sal

Por tina zani


começo

abro a roda

de cócoras abro o vão

as pernas espaço a boca

cutuco a experiência

poética

o cerzimento

com linha fina e pontos pequenos ligo

 

coisas diversas

artes diversas

corpos diversos

 

música literatura osso mídias

dicionário pele pelos dentes

 

não se nota a costura

[íntima]

 

não se nota

bocas

 

sempre em busca de água

palavras

outras bocas

a casa da mari não tem tranca

tem chão

 

entrar na roda da casa sem tranca é

começar sem começo as mochilas ficam

no canto a formiga trabalha

a cigarra cata contas e conchas

pra formar um colar salgado [azul] de mar

 

a mari frita ovo e pergunta se você quer

comer você não tem fome mas diz sim

 

na casa sem tranca banheiro tem roupa

pendurada pia molhada porta aberta e

água

 

ninguém pede desculpa

na casa sem tranca não tem

relógio tempo e a vírgula permanece —

quem escreve quando a mari canta


 

A poesia contínua e conjunto poético uncopyright

   

A poeta-artista tina zani publica linha de sal (Editora Patuá, 2025), um conjunto poético que repensa as noções tradicionais de autoria e propriedade intelectual ao se registrar como uma obra uncopyright. Com eventos em São Paulo e Campinas, o lançamento será acompanhado por uma parceria poética entre tina e o músico Méx Zani, filho da artista. A proposta é corporificar a experiência do livro como campo de presença e de escuta.


Em ambos eventos, a poeta e o músico apresentam um corpo-som poético construído a partir dos temas que atravessam o livro, combinando poesia, música e improvisação. Outras participações especiais também estão previstas.

Para além de um livro, linha de sal se propõe como um campo de convivência e permite o livre compartilhamento, reprodução e transformação. “Esse gesto torna evidente que a obra não entende a criação como produto de um único corpo, mas como uma organização de experiências, encontros e vozes. O texto não pressupõe pertencimento, ele atravessa”, explica tina zani.


Ao abdicar da propriedade, linha de sal evidencia a rede de relações que sustenta qualquer criação artística. “Em vez de restringir, o texto se abre: pode ser retomado, desdobrado e multiplicado por outros. O que atravessa o trabalho é um ‘estado líquido’, no qual fronteiras rígidas se tornam porosas”, explica.


O livro integra o projeto “dos pés imersos na água”, que investiga formas de criação baseadas no encontro e na não hierarquia. A poeta comenta que “a imagem dos pés submersos orienta o pensamento da obra: com os pés na água, o chão perde nitidez, o contorno se dilui, o território fica fluido, e o espaço se volta ao que é anterior à forma estável. É nesse ambiente que linha de sal emerge e circula, como um deslocamento no campo”. 


Além da publicação, o projeto inclui uma série de ações formativas e de democratização de acesso. Entre elas, os eventos de lançamento com tradução em Libras, a doação de 150 exemplares a bibliotecas públicas (100 já entregues), veiculação de videopoemas com janela de Libras em plataformas de acesso público, versão gratuita do livro em EPUB acessível além de audiolivro.  


Também como parte da contrapartida estão três edições do ‘Ateliê Roda’, um espaço de criação coletiva cuja primeira edição ocorreu no Programa UniversIDADE da Unicamp -Universidade Estadual de Campinas.  De acordo com tina, “foi uma experiência muito potente. Ficou evidente o quanto há uma carência de espaços horizontais, não hierárquicos, onde seja possível chegar sem precisar sustentar papéis, onde se possa falar a partir de si com mais honestidade. O que se formou ali foi um campo de confiança em que a escuta não vem para avaliar, corrigir ou interpretar, mas para sustentar. Isso permitiu a cada um elaborar a própria experiência de presença, sem precisar se defender. Esse espaço atravessa diretamente linha de sal, porque reafirma o que já está no trabalho: a escrita como um lugar de relação, em vez de afirmação individual. A experiência do ateliê tornou mais visível e mais concreto esse modo de estar –coletivo, poroso, mais disponível ao encontro”.


Serviço

Lançamento | Campinas

Data: 28 de maio

Horário: das 19h às 21h30

Local: Livraria Candeeiro (Rua Dr. Vieira Bueno, 170, Cambuí, Campinas)

Pré-venda: disponível no site da Editora Patuá  


 

tina zani é poeta-artista. bacharela e licenciada em Educação Artística (Unicamp, 1997), bacharela em Estudos Literários (Unicamp, 2021) e mestra em Teoria e História Literária (Unicamp, 2025). É idealizadora do projeto ‘Ponto Poema’ (2017), contemplado com o Programa Aluno Artista da Unicamp, desenvolve pesquisas no campo do encontro – entre desenho e texto, entre corpo e palavra, entre silêncio e som, entre gesto e respiração. É tradutora Caisses (P.O.L, 1998), de Christophe Tarkos, obra ainda inédita em português, disponível para publicação. Escreveu o livropoesia ‘vão’ (Patuá, 2021), contemplado com o ProAC 2020, e o conjunto poético uncopyright ‘linha de sal’ (Patuá, 2025), contemplado com o ProAC 2024.

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