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Phoesydra

  • Foto do escritor: URRO
    URRO
  • há 15 horas
  • 6 min de leitura

Minguante

Por Adriano Scandolara


Por favor, sopra logo

a trombeta, imploram os mortos

empilhados na despensa, entre o café

e o saco de arroz

                                    eu fecho

a porta e digo

ainda não é hora, mas

teimam e ocupam,

sem ter aonde ir,

todos os lugares do sofá,

seus peitos chiam, as mãos

procuram restos nos pratos

levados à pia

– quando chegar, eu aviso –

mas não têm ouvidos

e choram sobre o pó

que tiro dos cantos,

uma tempestade sopra

do paraíso, a trombeta roída

de ferrugem, deixa quieto,

tem muita louça, muito pó

ainda por varrer.


Salmo ao anjo da história

Se te consola,

mensageiro caduco, alguns

dos mortos tiveram, pasto de aves,

o sono negado, ingênuo supor

que o homem sem cova,

o de pulmões queimados, a filha violada, irão

levantar comovidos da vala

para revogar as ordens:

 

não vos esqueçais de mim,

meu sangue há de inundar o ar

que respirais, etc

                        como se

houvesse tempo sem memória e fosse

adiantar muita coisa também colar

esses cacos: é deitá-los no chão

                                               que outra vez em

72 outros pedaços se

partem,

            schlemiel

de um vaudeville barato, com vasos

quebrados e mal entendidos

                                               (e é talvez porque

não nos entendemos

que só pela pilha de destroços

se chegue ao céu)


Anistia

Se for bater, não me venha

com essa de estou só

cumprindo ordens, foi pra isso

que você lhes entregou

teu corpo, tuas pernas,

mãos, a língua, o cu

                                    desça

o braço com gosto, esta

é tua obra – e pra dar

amnésia, mire na cabeça,

a obra é anônima, teu nome

também entregue

                        apenas

um borrão

esse teu sorriso de filho da puta.

 

E continue golpeando mais

e mais

            e mais até

encontrar nesse saco de ossos que você,

necrófago, anseia abrir,

chupar o tutano que te falta,

uma resposta na torção

desdentada da boca,

passado certo ponto – além da amnésia,

o músculo em cãibra, as falanges já

quebradas de tanto bater,

aprende-se a amar o punho cerrado.


Corpo

And every possibility’s been proved untrue

            Now is your body you?

            – Michael Gira/Swans

 

Este eu precariamente construído

sem alicerce ou fundação, sem pedra

angular, o desprezo dos que passam,

este terreno acidentado, a mão-

 

-de-obra trêmula, como se tivesse

sido opção – sim, pois sempre desejei

paisagens em que as árvores se adornam

de suicidas. À porta, um mar de lodo.

 

Cada tremor no peito, cada olhar

marejado, o desastre já previsto

desde a primeira ripa se anuncia,

 

surpreende e não devia: enfim o corpo

(torta metáfora aqui para o espírito)

soterrado na lama e nos escombros.


 

Um livro sobre súplicas, retornos, retratos e arqueologias

Por Ludimila Moreira

 

Um livro de paisagens, sigilos, troças, viagem, animais, liturgia e nostalgias que ascendem ao real e se enfunam no inconsciente por uma linguagem que experimenta o erudito, a graça e a intimidade em um mosaico de cosmogonias míticas do urbano, retratos de subjetividades e psiquismos ora cômicos, ora dramáticos mas sempre com um elo na fresta ou pedaço de imaginário ficcionalizado ou histórico .

 

Com epígrafes do poeta romeno Paul Celan e da israelense Dahlia Ravikovitch, Minguante, do tradutor e poeta Adriano Scandolara, é regido por assombros e clarões que assumem espessura mineral, espacial e fisiológica. As vozes que sondam microcosmos ambientais ou ecossistemas de memória ou ainda circuitos pulsionais encarnados na trama da sexualidade elaboram um jogo altissonante entre o ordinário dos pactos do cotidiano e a afecção de tempos míticos e históricos convertidos em uma agoridade híbrida, atravessada de simultaneidades entre abutres, tabus, eternos retornos e Heráclito. Minguante se perfaz em quatro seções nomeadas de: “As leis do abismo acaso se hão quebrado?”; “O caminho árduo”; “Fortuna maior”; “O signo luminoso”

 

Já no primeiro poema, “Poema pingado”, avulso e introito das seções que virão depois, se manifesta um jogo de consumação entre temporalidades e uma rasura da ontologia de um território mitológico “Na rodoviária do Hades/uma alma encosta no balcão” em um crescente que deflagra crise do sujeito envolto em um lirismo contemporâneo acossado pela era quase niilista do capital.

 

No poema “Salmo ao anjo da história” os versos “Se te consola/mensageiro caduco, alguns/dos mortos, pasto de aves, tiveram/o sono negado, ingênuo supor/que o homem sem cova/o de pulmões queimados, a filha violada, irão/levantar comovidos da vala/para revogar as ordens” e também no poema “O lixeiro conhece teus segredos mais sórdidos”, ambos da primeira seção do livro, vinga uma dicção de sarcasmo eletrizada por tempo dialético que põe em cena imaginário e voz narrativa aglutinados em um contrapelo da história.

 

Na segunda seção, o fracasso surge como cicerone ou ainda mais aterrado, como estrutura psíquica, de sujeitos cindidos, às voltas sem ilusão como em Corpo “(...) sem alicerce fundação, sem pedra/angular, o desprezo dos que passam/este terreno acidentado (...) ou em Epifania da madrugada “Não há epifania depois das quatro,/entre remorso e cerveja morna/olhe desfigurado o espelho/glória se glória/houve um dia/foi ontem/ hoje nem um sorrisinho forçado”. É deste universo que é pressagiado por epígrafe sobre a monotonia do mal de Simone Weil que está um dos poemas mais bonitos do livro, Metempsicose.

 

O poema porta o atrito entre passado violável e presente com redenção via desejo de catarse e tragédia “(...) é que eu preciso/ de dinheiro pra comprar/gasolina, disse ele./Dei as moedas que tinha/e parti/com a esperança/de que ele, longe/de parecer ter carro,/ao som da cítara eletrônica/ do telefone, pudesse/ ser a reencarnação de Nero.” Diagnósticos também é outro poema forjado sobre o revés e benzido sob o azar “Ter nascido sob um astro ruim/ou a besta no couro, um prato/pingando bile negra, visões de cavalos brancos e manequins/quebrados, demônios passando trotes telefônicos - seu eco/em quartos vazios, (...)”.

 

Animais, humanos e pensamentos visuais de alta carga lírica e cínica compõe essa terceira seção de “Fortuna maior”, poemas aventurosos em ode ao ludibriar como ente da astúcia da natureza, dos microcosmos botânicos, do cinema e do significante como em Da Arqueologia (Poema Enciclopédico II) “(...)assim nascem, filhos de engano e tinta,/Belial, Baphomet, Demogorgon/dessa espessura de papel que separa o numinoso e o mundano/ (ou papiro, pergaminho ou barro)”. Em “Três poemas com o Discovery Channel”, o tom nostálgico, zombeteiro, a rasura do antropocentrismo elaboram cenas de melancolia e protagonismos das espécies companheiras com versos que evocam ternura, cálculos, crimes: “Entre os intervalos/comerciais, imagino/que um safári deva ser como /visitar a casa da mãe depois de adulto/os urros do gnu que o leão devora vivo/a carcaça oca da girafa/onde uma hiena brinca/como criança.” “Ursos/imersos na correnteza:/do mar o salmão/volta e arrisca o salto/entre as presas/sem pensar, sem/escolha, (...)’’ ou ainda “Um golfinho ri/pra nós e abala/toda fé edênica/na inocência animal(...)”

 

Na última massa minguante do livro, na quarta seção, “O signo luminoso”, metafísica e imanência se condensam em ritmos e imagens sobre materialidade do ser e do agora, sobre a circularidade do tempo, das almas e das flores. Nesse escalonamento de rochas estáticas e paradoxalmente viradas ônticas de sujeitos os títulos indiciam uma recusa na crença da linearidade (Tese/Antítese; Antítese: nada muda; A síntese destrutiva). Nesta última fatia do livro ganha ainda mais força o ânimo mítico e histórico dos versos que presentificam Heródoto, Heráclito e Abutres como entes de um passado visceral e irretornável não pela falta de desejo do rito, da predição, do sangue (que se manifestam aqui) mas pela epifania negativa de um mundo que renega o auguro, o assombro e o sonhar.

 

Um livro sobre súplicas, retornos, retratos e arqueologias. Um terreno, como achado de incursões de Scandolara e da vozes narrativas ficcionalizadas nos poemas, meio maldito e ungido pela estilística e seus giros místicos, realistas e filosóficos.

 

Publicado em 25/4/25 no substack:



 

Adriano Scandolara é poeta e tradutor de Curitiba, atualmente residente em São Paulo. Como tradutor, publicou Prometeu Desacorrentado e outros poemas, de Percy Bysshe Shelley (Autêntica, 2015); Sansão Agonista, de John Milton (Editora de Cultura, 2021); e o volume de tradução de poesia suméria Inana: antes da poesia ser palavra era mulher (Sobinfluencia, 2022, finalista do 65º Prêmio Jabuti, em colaboração com Guilherme Gontijo Flores), além de também ter trabalhado com a obra de nomes como Aldous Huxley, Alan Moore, Hari Kunzru, H. G. Wells, Marjorie Perloff, Mark Z. Danielewski, Ray Bradbury, Samantha Harvey e outros. Foi um dos membros fundadores do coletivo escamandro e autor dos livros de poesia Lira de Lixo (Patuá, 2013), o volume conceitual PARSONA (Kotter/Ateliê, 2017) e o poema narrativo Momo Rei (Kotter, 2023). Minguante (Ofícios Terrestres, 2024) é a sua quarta coletânea de poemas e marca o retorno à poesia lírica.

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