top of page

Phoesydra

  • Foto do escritor: URRO
    URRO
  • 19 de ago. de 2025
  • 6 min de leitura

Atualizado: 22 de ago. de 2025

As Vísceras das Coisas

Por Maurício Simionato


A maturidade das formas, estilos e significados. Diálogos e indagações que nos influenciam. Os caminhos dos poemas que compõem esse livro.


Faca de amolar

Devolver as coisas,

parir a voz

para fazer falar o corpo

onde não se espera

mais que seja:

 

Persistir na toada,

permitir qualquer fuga

da ausência de si.

“Abismo é queda ou voo?”

Há, por aí, algo que não se costuma dizer

e que não obedece a ninguém.

 

Onde já se viu

o labirinto da vida

correr de chofre

sobre a fina casca da existência?

 

Diga-me para onde vais.

Lá fora, há pessoas paralisadas.

 

Caio em mim, mas ainda assim, danço.

Suspensas são as nossas sombras sobre os nossos olhos.

 

O que vemos é o que nos parou de olhar.

Uma ínfima parte de mim sobrou

mas já está lá:

entre o copo d’água

e o mar que não há.

 

Diante da brutal incerteza,

o que poderia aflorar neste dia tão azul?

 

A vida é faca

sendo amolada

ao som de um blues.   


 

Página em branco

 

Palavra é lâmina exposta.

A letra também o é.

A metade da letra, idem.

A dor da letra talhada é encenação

do além.

O corte do poema é/

O poeta, então, passa a ser o que deveras sente: finalmente.

Quando cai aos céus

na lenta volúpia da ida ao irreal.

Passa a ser corpo

de algaravia.

Esquece o vazio

da página em branco

que suporta o mundo.

Faz-se elipse.

Soma-se a si

o limiar dos silêncios.

 

 

Evaporam-se manhãs

 

galhos, troncos, existências e folhas

 

seguem as aleatoriedades

 

vorazes de fluidez

 

por águas passadas

  

uma correnteza é composta

 

de suor, fúria, margens,

 

tempos gastos e coisas mortas,

 

mas a elas

 

não me entrego

 

porque é preciso

 

contrariá-las como

 

faca de lâmina cega

 

que almeja ser caco de vidro /

 

 / da ilusão de que

 

podemos vencê-las

 

é que se mantém

 

a vida, enquanto

 

evaporam-se manhãs

 

que insistem em ser

 

o mar, algum dia /

  

/ enfrentar contramarés

 

de cursos caldalantes

 

leva à exaustão, porém

 

exercita o viver

 

 

Vazio irreversível


Havia um cavalo

de galope calado,                  

                                               ilhado

                 sobre o telhado

    da casa alagada:


        nem dourado, nem feliz,

nem fake, nem colorido, nem alado,

nem mesmo triste:

                                     desaparecendo.

 

Trouxe consigo

             um silêncio de alerta

para mostrar que algo

         tornou-se tarde demais.

 

Antes do primeiro amanhecer,

sonhou em salvar-se

            de precisar ser salvo

          pelos homens.

 

No pesadelo da segunda aurora tardia,

achou que fosse um urso

raquítico a flutuar, sem destino,

      num bloco de gelo desgarrado.

 

                  Entre a terceira noite e o sol a pino

            delirou em ser

     um tamanduá-bandeira

cercado por labaredas, afundando lentamente no chão.

 

      Rente à madrugada seguinte, só

desejou trotar livremente

sobre as águas, 

                rumo a rios erráticos.

 

No último dia sequer sonhou,

soltou seu relincho engasgado

ante o raiar de um vazio

                                       irreversível.

 

Foi resgatado

numa manhã desamparada

de quinta-feira.

Mas até quando?

 

 

Pássaro extraordinário


Escolher quando ir:

bem partir, isto é, partir quando se bem quer, posto que aquilo

que o fez fugaz, passou a aprisioná-lo.


Escolher quando ir:

dar uma volta pelas ruas numa noite chuvosa, rumo a um passado remoto,

entre os relâmpagos do Leblon.


Escolher quando ir:

pegar a estrada da qual

não se volta — exceto os que inventam

ventos movidos a versos.


Escolher quando ir:

mas, antes, ter o amor

que só

evocam as despedidas.


Escolher quando ir:

fazer as malas

e embarcar em si:

apossar-se da existência.


Escolher quando ir:

caminhar na areia

da praia e desaparecer na névoa

espessa da manhã-qualquer.


Escolher quando ir:

perder-se nos braços

da boa imortalidade,

isto é: abrilhantar-se.


Escolher quando ir:

e não ir. Fazer de conta que se foi.

Decidir ficar aqui.

Ir sem ter ido. Ou mesmo, viver enquanto se vai.


Escolher quando ir:

porque as circunstâncias da vida

encurralam e permitem que se vá, nas asas

do livre-arbítrio, com o tanque cheio.


Escolher quando ir:

para guardar-se

                         no voo

de um pássaro extraordinário.

Para Antônio Cícero

  


ORELHA DO LIVRO AS VÍSCERAS DAS COISAS

Por Katia Marchese

Poeta

 

Sou zero à esquerda, sem vitórias ou derrotas, com a lâmina da palavra, recolho o que sobrou do amor. 

 

Maurício Simionato, poeta e jornalista, é conhecido por sua poesia densa e intertextual, abordando o destino humano, influenciado por sua formação em Comunicação, Filosofia, Sociologia e Literatura. No seu novo livro, 'As vísceras das coisas', Maurício Simionato apresenta a jornada investigativa que o levou a maturidade das formas, estilos e significados e neste percurso, dialoga e indaga com os poeta que o influenciaram (Leminski, Drumond, Orides Fontela, Murilo Mendes, entre outros) para compor o mapa dessa geografia poética.


Para além da distante observação das cenas da vida, o poeta adentra a realidade e com seu corpo pisa, toca e se fere nos escombros da autodestruição dos seres, da natureza e das cidades. Os versos, feitos da matéria crua da existência: desnudam guerras internas e externas, celebram efêmeras beleza e resistem, através da palavra, ao apagamento. Aqui, a poesia não é refúgio, mas faca — corta ilusões e, ao mesmo tempo, afia a esperança.


Entre sombras urbanas e rumores amazônicos, o livro aponta para as brechas do tempo incompleto, há um pássaro extraordinário pronto a decolar. Maurício sabe que a impermanência destrói a memória dos fatos, por isso o eu lírico destes poemas não é um gauche reconfortado por um café, mas sim um catador, um morador das ruas, um refugiado que recolhe os pedaços deixados por bombas, fuzis e paixões. Atento, observa as frestas que se abrem pela natureza dos ventos. E é por elas que a poesia encarna o feminino, buscando reconstituir o significado das coisas. Ser novamente um todo a partir dos fragmentos.


Na tensão entre o desejo de permanência e a transitoriedade das coisas, constrói a unidade temática do livro em torno da fragilidade humana e da resistência por meio da arte. Ao leitor, sugiro um olhar cortante para abrir as vísceras dos signos e sentidos, deixo aqui minhas recolhas:

 

Na travessia das frestas do brutal cotidiano, saber a quem deixar o que resta da silenciosa falta: isso tudo é só / uma forma de esquecermos / algo a mais sobre o que se foi /perdemos, aos poucos: / momentos, desejos, sangue, pele, bombas, juízo e o ônibus.


Quem você salvou hoje? Entregues estamos às estreitas possibilidades: Carlos, teus ombros já / não suportam dormir /nesse colchonete úmido e duro, / no Centro da Capital Financeira do País. Em seguida olhar para si mesmo num mundinho em miniatura e escrever em outra língua, literalmente: Die Kleine Welt / der / brasilianischen / Poesie / Ist / Ein / C u - z i - n h o.


Mais adiante constatar-se Icaro, com as asas que derretem sob o sol da vã possibilidade: Há novas guerras no velho front / Diante de nossos rostos anônimos, / a miragem do amor irrevogável. / Desmoronam os milagres.


A palavra, arma branca, corta o vento, esculpe a pedra e guarda o sangue que escorre das guerras em suas lâminas: uma vida assim/ que não se restringe / aos céus /esvaziou-nos de ausência/ tal qual esse algo / que ceifa amigos / noites & flores.


Abre-se por uma nesga, na pedra fria, uma fresta, passagem de afeto para feridas: há um abraço / no meio da neve posta, / duas mulheres se entrelaçam / entre a sombra tesa do encontro delas, / espichada e ilesa sobre a neve de sussurros/ a repousar sobre um pedaço de terra arrebatada.


E a palavra, fio de navalha recorta as imagens de um céu que está caindo sobre todos nós. O que resta é o vão dos abismos, por onde passa o vento teimoso da sobrevivência, e por onde é possível e deixar ao futuro uma receita de como se faz poesia: esticar as dimensões de / um mundo jamais sonhado.



Maurício Simionato é poeta e jornalista. Como poeta, lançou os livros Impermanência (2012) — selecionado pela Secretaria de Cultura de Campinas —, Sobre Auroras e Crepúsculos (Multifoco, 2017) — lançado na Bienal do Livro do Rio/2017 —, e O AradO de OdarA (Uma distopia tropical) (Patuá, 2021). O autor também tem poemas publicados em diversas revistas especializadas em literatura, assim como em mais de 15 antologias poéticas. Foi três vezes finalista do Prêmio Off Flip (2020, 2021 e 2023) e, ainda, finalista do Prêmio Guarulhos de Literatura (2019).



 

Posts recentes

Ver tudo

Comentários


bottom of page