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Poeshydra

Foto do escritor: URRO
URRO
há 7 dias
3 min de leitura

Atualizado: há 4 dias

Coração Bomba

Por Carol Sanches



nomeação


me chamo Carolina


ou melhor


me chamaram Carolina


ainda que eu seja


anterior ao meu nome


alguém a quem um dia


chamaram Teresa


sonhou com quem atende


pelo nome Buda


e um bebê, ainda sem nome,


em seu colo


Buda desviou os olhos do bebê sem nome


encarou Teresa, já velha de nome:


esta criança que vem hoje ao mundo


vai se chamar Carolina


não importava


que mais crianças


viessem ao mundo


naquele dia


humanos atendem aos nomes


humanos nomeiam às voltas


tudo o que já era velho


antes de ser novo


Carolina mal sabia


mas faria o mesmo


com suas duas filhas

 

*


interrompidos


um dia


o coração para


não demora muito


para a batida ceder espaço


a um ato falho contínuo


minha avó dizia que dormindo


seria o melhor jeito de morrer


minha tia recomenda estar viva


na hora da própria morte


os caminhos seguem indicando


passagens obstruídas


mulheres parecem sempre dispostas


a dar um jeito


*


vida que segue


na hora da morte


a borboleta registrou em vidro


seu testamento final:


fino fio de cúrcuma


pensou como são frágeis


os fósseis das borboletas


se ateve alguns segundos


no amarelo cortante


ligou os para-brisas


*


duras penas


se morasse no campo


teria a incumbência


de matar galinhas e porcos


vidas menores


vêm com finalidades


específicas


teria que escaldar a galinha


na água fervendo do tacho


para lhe saírem as penas


fritar os últimos pelinhos


de sua pele fina


passar pelo fogo


sapecar a lembrança


de quando ainda era viva


lavar no tanque,


cortar


se morasse no campo


teria que escolher meu tipo de instrumento


a depender do temperamento:


facão para morte por pescoço interrompido


mão para morte por pescoço torcido


escolheria


o mais humano


*


chicles


às vezes


algumas das grandes dúvidas


existenciais


podem ser resolvidas


mascando chicle


— este é o pior chiclete que já masquei


— então por que está mascando?


— porque até chiclete ruim é bom


*


sala de aula


enquanto uma criança desenha uma árvore de antenas


razão infantil para a fotossíntese


o amigo ao lado rabisca uma árvore lançadora de raios


algumas hipóteses de mundo


teorizam a sala de aula


circulam pelas mesas crayolas, lápis de cor


discutem-se por que algumas borrachas


apagam mais que outras


ou sobre como certas tesouras


cegam mais que outras


Orelha


Se, para Octavio Paz, “o poema nos revela o que somos e nos convida a ser o que somos”, Carol Sanches nos convida a tomar consciência da máquina — o coração-bomba — que operamos em nós. Sua poesia “testa o limite/ entre dor e alívio”, “aprisiona o instante” de um coração que bombeia versos sobre o mais visceral do que significa ser e vir a ser. Carol caminha entre o limiar do que fomos, somos e almejamos nos tornar; nas sutilezas entre olhar e ver, chegar e partir, viver e morrer, a poeta nos chama para a necessidade de entrarmos em movimento, ainda que isso nos doa. Se há “toda a brutalidade do poema”, em Coração-bomba há toda a brutalidade da experiência. Carol Sanches nos apresenta um corpo tátil, palpável, mortal — o coração — e também um corpo-poesia — imaterial, metafísico, perene.


Esse corpo-coração percorre diversos caminhos: o da natureza, dos bichos, dos insetos, das plantas e flores; o familiar, das filhas, dos pais, dos amores interrompidos; e o do coração-órgão em si, essa bomba que Carol procura desvendar e revelar não só para si mesma, mas também para quem a lê. Se “tudo que tá fora, tá dentro” e “tudo que tá dentro, tá fora”, é certo que caminharemos não só pelo mais íntimo da poeta, mas também pelo mais íntimo de nós mesmos. (Camila Paixão)



Carol Sanches é formada em Publicidade e Propaganda (ESPM) e pós-graduada em Poéticas Verbais (USP). É autora dos livros de poesia Tudo é química (Quintal Edições, 2022), Devo admitir que me dá um certo prazer (Urutau, 2020), Não me espere para jantar (Patuá, 2019), menção honrosa no Prêmio Maraã de Poesia 2018, e dos livros independentes Poesias Pormenores (2007) e Toda diva tem divã (2008). Seus poemas também podem ser encontrados em revistas digitais e antologias poéticas. Coração-bomba é seu sexto livro de poemas.


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