Poeshydra

Atualizado: há 4 dias
Coração Bomba
Por Carol Sanches

nomeação
me chamo Carolina
ou melhor
me chamaram Carolina
ainda que eu seja
anterior ao meu nome
alguém a quem um dia
chamaram Teresa
sonhou com quem atende
pelo nome Buda
e um bebê, ainda sem nome,
em seu colo
Buda desviou os olhos do bebê sem nome
encarou Teresa, já velha de nome:
esta criança que vem hoje ao mundo
vai se chamar Carolina
não importava
que mais crianças
viessem ao mundo
naquele dia
humanos atendem aos nomes
humanos nomeiam às voltas
tudo o que já era velho
antes de ser novo
Carolina mal sabia
mas faria o mesmo
com suas duas filhas
*
interrompidos
um dia
o coração para
não demora muito
para a batida ceder espaço
a um ato falho contínuo
minha avó dizia que dormindo
seria o melhor jeito de morrer
minha tia recomenda estar viva
na hora da própria morte
os caminhos seguem indicando
passagens obstruídas
mulheres parecem sempre dispostas
a dar um jeito
*
vida que segue
na hora da morte
a borboleta registrou em vidro
seu testamento final:
fino fio de cúrcuma
pensou como são frágeis
os fósseis das borboletas
se ateve alguns segundos
no amarelo cortante
ligou os para-brisas
*
duras penas
se morasse no campo
teria a incumbência
de matar galinhas e porcos
vidas menores
vêm com finalidades
específicas
teria que escaldar a galinha
na água fervendo do tacho
para lhe saírem as penas
fritar os últimos pelinhos
de sua pele fina
passar pelo fogo
sapecar a lembrança
de quando ainda era viva
lavar no tanque,
cortar
se morasse no campo
teria que escolher meu tipo de instrumento
a depender do temperamento:
facão para morte por pescoço interrompido
mão para morte por pescoço torcido
escolheria
o mais humano
*
chicles
às vezes
algumas das grandes dúvidas
existenciais
podem ser resolvidas
mascando chicle
— este é o pior chiclete que já masquei
— então por que está mascando?
— porque até chiclete ruim é bom
*
sala de aula
enquanto uma criança desenha uma árvore de antenas
razão infantil para a fotossíntese
o amigo ao lado rabisca uma árvore lançadora de raios
algumas hipóteses de mundo
teorizam a sala de aula
circulam pelas mesas crayolas, lápis de cor
discutem-se por que algumas borrachas
apagam mais que outras
ou sobre como certas tesouras
cegam mais que outras
Orelha
Se, para Octavio Paz, “o poema nos revela o que somos e nos convida a ser o que somos”, Carol Sanches nos convida a tomar consciência da máquina — o coração-bomba — que operamos em nós. Sua poesia “testa o limite/ entre dor e alívio”, “aprisiona o instante” de um coração que bombeia versos sobre o mais visceral do que significa ser e vir a ser. Carol caminha entre o limiar do que fomos, somos e almejamos nos tornar; nas sutilezas entre olhar e ver, chegar e partir, viver e morrer, a poeta nos chama para a necessidade de entrarmos em movimento, ainda que isso nos doa. Se há “toda a brutalidade do poema”, em Coração-bomba há toda a brutalidade da experiência. Carol Sanches nos apresenta um corpo tátil, palpável, mortal — o coração — e também um corpo-poesia — imaterial, metafísico, perene.
Esse corpo-coração percorre diversos caminhos: o da natureza, dos bichos, dos insetos, das plantas e flores; o familiar, das filhas, dos pais, dos amores interrompidos; e o do coração-órgão em si, essa bomba que Carol procura desvendar e revelar não só para si mesma, mas também para quem a lê. Se “tudo que tá fora, tá dentro” e “tudo que tá dentro, tá fora”, é certo que caminharemos não só pelo mais íntimo da poeta, mas também pelo mais íntimo de nós mesmos. (Camila Paixão)
Carol Sanches é formada em Publicidade e Propaganda (ESPM) e pós-graduada em Poéticas Verbais (USP). É autora dos livros de poesia Tudo é química (Quintal Edições, 2022), Devo admitir que me dá um certo prazer (Urutau, 2020), Não me espere para jantar (Patuá, 2019), menção honrosa no Prêmio Maraã de Poesia 2018, e dos livros independentes Poesias Pormenores (2007) e Toda diva tem divã (2008). Seus poemas também podem ser encontrados em revistas digitais e antologias poéticas. Coração-bomba é seu sexto livro de poemas.



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