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Nariz de Cera

Foto do escritor: URRO
URRO
há 1 dia
4 min de leitura

A entrevista proibida

Por Israel Moreira


Em junho de 2022, depois de uma rápida passagem pela Rádio Futebol Interior, recebi o convite para ingressar na “seleção do rádio campineiro”, como é carinhosamente conhecida a equipe de esportes da Rádio Central, AM 870.


Nunca havia trabalhado como setorista, mas, desde que entrei na área do Jornalismo, sempre sonhei em trabalhar com futebol. Ainda mais em uma emissora da qual fui ouvinte durante toda a minha vida, como repórter responsável por cobrir o meu time do coração: a Ponte Preta.


E, claro, muitas foram as dificuldades no início: aprender a lidar com o ritmo frenético do rádio e conhecer a linguagem esportiva dirigida ao ouvinte e ao torcedor. A Ponte Preta estava na Série B daquele ano e fazia uma péssima campanha sob o comando de Hélio dos Anjos.


O garoto da Vila Orosimbo Maia, periferia de Campinas onde nasci e cresci, que um dia sonhou em ser jornalista esportivo, estava no estádio Moisés Lucarelli para sua primeira jornada no rádio. A partida foi contra o Sampaio Corrêa, numa quinta-feira à noite, em Campinas. O nervosismo e a ansiedade me perseguiram durante toda a jornada.


A equipe da Central era praticamente a mesma que hoje empunha esse tradicional microfone. Beto Quinaglia, o comandante, era o comentarista naquele dia. Decimar Leite era o narrador principal, e Marcos Luiz, o âncora e responsável pelo plantão da jornada. Fernando César, hoje setorista da Ponte, na época revezava com Marcos Luiz. Estava comigo naquela transmissão e me chamou, dando as boas-vindas à equipe Central logo no início da jornada.


Atrás de um dos gols, dei o primeiro boletim. Troquei algumas palavras, corrigi na sequência e engasguei com outras. Era a demonstração do nervosismo que habitava em mim.


Foto: Lucas Almeida


Antes do início da partida, enquanto Beto e Decimar trocavam ideias na cabine da Central no Moisés Lucarelli, eu estava atrás da meta do lado da linha do trem. Caminhava em minha direção o técnico da “Bolívia Querida”, Léo Condé, que acabara de dar entrevista à emissora de TV que detinha os direitos de transmissão e se dirigia ao vestiário de sua equipe.


Se eu já estava nervoso no primeiro dia e na primeira jornada na Central, pensei comigo: “Agora eu me consagro”.


Ele se aproximava do túnel, e eu nem sabia o que perguntar. Os repórteres de rádio eram proibidos de fazer entrevistas antes e durante os jogos, restrição que continua existindo. Era um risco: minha primeira entrevista no campo seria justamente uma entrevista proibida. Somente ao fim da partida são permitidas as entrevistas com os jogadores, no que chamamos de “zona mista”.


Voltando ao Léo Condé: quando se aproximou de mim e ouviu meu pedido para falar no microfone da Central, aceitou de imediato. Eu tinha a mania de dizer “nos microfones da Central”, mas, claro, só tinha um.


Quando fui perguntar se vir a Campinas enfrentar a Ponte ainda era uma tarefa difícil, derrubei meu caderno de anotações no gramado. Ao me abaixar para pegá-lo, meu rádio de retorno se desconectou do fone.


Pronto, era o meu fim: ao vivo, sem retorno e com uma entrevista proibida.

O próprio treinador foi gentil. Percebendo meu nervosismo, pediu que eu ficasse tranquilo. Peguei meu caderno, conectei novamente o fone, chamei a cabine e comecei tudo de novo.


“Com exclusividade, o técnico Léo Condé vai falar nos microfones da Central. Boa noite, professor.”


E fiz a minha pergunta.


A entrevista durou alguns minutos. Antes de terminar, agradeci pela paciência, e ele me desejou boa sorte naquele início. Experiente como era, percebeu na hora que eu estava começando e que o nervosismo quase acabara com minha primeira entrevista.


Ao terminar a conversa com o treinador do Sampaio Corrêa, devolvi a transmissão para a cabine e ouvi uma voz atrás de mim:


“Ei, Central!”


Olhei, e era o representante da CBF.


“Você sabe que não pode entrevistar, né?”


Eu respondi, na maior cara de pau:


“Não pode?”


Ele explicou e explicou as regras. Disse que tínhamos que saber as regras. E as regras…


Minha primeira entrevista no campo, mesmo proibida, me rendeu dois jogos de suspensão. Sim, ele me suspendeu por dois jogos.


A partida terminou em 0 a 0. Mas aquela entrevista com Léo Condé foi marcante para mim e, por incrível que pareça, para ele também.


Dois anos depois, em 2024, Léo era o comandante do Ceará Sporting Club, que jogava no Brinco de Ouro contra o Guarani, na partida que valia o acesso à Série A do Campeonato Brasileiro de 2025.


O empate por 0 a 0 garantiu o acesso à equipe cearense. Após o apito final, a festa da torcida, dos jogadores e da comissão técnica dominou o estádio bugrino.


E olha só: eu estava como repórter naquele jogo, agora pelo microfone da Jovem Pan News. O treinador dava entrevista ao SporTV, e eu, de mansinho, coloquei meu microfone junto a ele. Léo se virou para mim e, com um olhar de surpresa, continuou a responder ao colega da TV.


Após a entrevista, pedi para falar com ele. Léo estendeu a mão e perguntou:


“Como vai?”


Eu respondi:


“Quanto tempo, professor…”


Fiz a pergunta, ele respondeu, e eu agradeci. Ao se despedir, ele se virou e disse:


“Obrigado, amigo. Bom trabalho. Bom te ver.”


Minhas atrapalhadas de dois anos antes também não saíram da memória do entrevistado. Muito menos da minha.



Israel Moreira é nascido na periferia de Campinas. Jornalista, com passagens por diversos veículos de comunicação da cidade. Atualmente é repórter do Diário Campineiro e do Portal Porque Campinas, além de apresentador e comentarista da Rádio Brasil Campinas. Conhecedor da história do Carnaval de Campinas, é autor do livro “Defensores: os grandes zagueiros da história da Associação Atlética Ponte Preta” e de “Entre Ruas e Sonhos”, sua primeira ficção, uma narrativa ambientada na periferia de Campinas nos anos 1990.

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