Nariz de Cera
- URRO

- 16 de abr.
- 3 min de leitura
Um ‘porra’ em rede nacional
Por Ronnie Romanini
Em tempos de polêmica "de Chico" (não o Science, muito menos o Buarque e menos ainda o da Luiza Sonza), vale lembrar a famosa frase dita pelo técnico Renê Simões em 2010 sobre o então (ainda?) menino Neymar.
"Estamos criando um monstro"
Discussões atuais à parte - seja sobre as declarações infelizes do garoto de 34 anos ou sobre a polêmica se ele estará na Copa do Mundo - Renê Simões acertou na mosca. Neymar foi um monstro tanto dentro quanto fora de campo (entendam como quiser o significado, e viva a polissemia!!).
Porém, quem aponta um dedo tem outros três apontados para si (é assim o ditado?).
"Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você"
Em 2020, dez anos depois da profecia de Renê Simões, participei de uma entrevista concedida pelo treinador a uma rádio de Campinas. A conversa foi por telefone, estávamos ainda em isolamento devido à pandemia.
Na ocasião, entrevistas com jogadores, técnicos, ex-atletas, dirigentes e demais personalidades do mundo esportivo eram a solução para ajudar a preencher (encher linguiça) três horas diárias de programação esportiva, uma vez que poucos meses antes houve a suspensão de todas partidas do futebol brasileiro.
Chegou, então, o dia de Renê Simões. A entrevista ia bem até os 45 minutos do segundo tempo. Perto do acréscimo, o experiente treinador agiu como juvenil quando passou a analisar um eventual retorno do futebol no Brasil.
"Vamos discutir o futebol como um fator social para ajudar as pessoas que estão em casa en-lou-que-cen-do. Eu tenho amigos aqui que já se separaram, outros já bateram na mulher, outros batem nos filhos... estão enlouquecendo."
O momento pedia, claro, sangue frio, o que não houve da minha parte.
Automaticamente, sem pensar, abri o microfone por um segundo e não consegui segurar um "porra" dito num misto de surpresa com indignação.
Queria falar mais, mas na mesma velocidade desativei o microfone e a tal surra de prosa que eu queria dar ficou presa na garganta como um trago que não caiu bem.
Horas depois, a fala de Renê Simões repercutiu nacionalmente, com o áudio exposto nas principais emissoras e portais do país. E com um discreto e curto "porra" no final.
Talvez a descrição de violência doméstica contra mulheres e crianças com entonação tão tranquila tenha sido absurda num nível que os editores não perceberam do que se tratava a pequena interrupção na fala do técnico e levaram o trecho ao ar sem edição.

Obra: O locutor, de Cildo Meireles (1948)
Por mim, tudo bem. Sempre quis proferir um palavrão (quem não tem os seus preferidos, bom sujeito não é) em rede nacional, só não sabia que seria assim.
"Quem me conhece sabe"
"Pouco depois, Renê admitiu que errou. Ele justificou dizendo que recebeu uma ligação de uma amiga dizendo que tinha sido vítima de agressão verbal e física e que faltou contexto em sua fala polêmica."
Aqui não cabe a mim julgar, apenas contar o causo. Mas vale a reflexão. No futebol, o pensamento masculinista é dominante. Os monstros são variados, mas, em comum, praticamente todos possuem duas características: misoginia e homofobia.
É importante um posicionamento (e não com um simples "porra" como este imbecil aqui fez) toda vez que algum tipo de violência contra mulheres, homossexuais, negros for cometida e presenciada em uma entrevista à imprensa. Não é rivalizar com o entrevistado, mas não deixar que os bons modos e uma pretensa fleuma atrapalhe o que deve ser feito: não tolerar os intolerantes.
Ronnie Romanini é profissional da área de Comunicação. Atuou como repórter da Rádio Central e editor do Correio Popular



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