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Nariz de Cera

  • Foto do escritor: URRO
    URRO
  • 26 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

Dois Urros!

Por Edilson Damas


Dificuldade rima com oportunidade. Nos idos dos anos 90 pelejava o jornalista que lhe escreve os passos primeiros no radiojornalismo: Redator do Jornal da CBN Campinas, primeira edição. A jornada iniciava-se às seis da matina e obedecia à rotina que relato.


No caminho para a emissora, situada no Edifício Prudência - Benjamin Constant com Barão de Jaguara - eram colhidos de uma banca os jornais locais Correio Popular, Diário do Povo e Todo Dia e os nacionais Folha de São Paulo, Jornal da Tarde, Estadão e Jornal do Brasil. Abasteciam as manchetes que seriam reveladas pelo locutor na escalada do Jornal da CBN Campinas. Tudo cronometrado e com o tempo exíguo.


As ondas de rádio, sendo ondas eletromagnéticas, viajam à velocidade da luz, aproximadamente 300 milhões de metros por segundo no vácuo ou no ar. Isso significa que a transmissão do sinal da emissora até o ouvinte é praticamente instantânea. E foi neste exato momento que começou o imbróglio que iria marcar de modo hilário e revelador a vida deste escriba do rádio.


Minha tarefa primordial era entregar ao locutor o pão fresco e quentinho das principais notícias do dia. O famigerado “Manchetado”, aquele que usa o formato da manchete para destacar informações importantes. Qualquer intercorrência colocava em risco a cadência desta entrega.


A gestão do tempo no rádio ao vivo é fundamental para garantir a fluidez, o profissionalismo e a relevância do conteúdo para a audiência. Iniciar e terminar programas, blocos e inserções publicitárias exatamente nos horários planejados é vital para respeitar a grade e os compromissos comerciais.


Em algumas ocasiões o locutor, por motivo diversos, não chegava a tempo para fazer a abertura do jornal e o técnico me ligava para que eu acelerasse e o substituísse. Uma sangria desatada. Desenfreado, descia a Francisco Glicério praticando um trava-línguas: “Em cima do jarro tem uma aranha. A aranha arranha o jarro ou o jarro arranha a aranha?”. Os jornais da banca saltavam às minhas mãos e em poucos minutos estava eu posicionado no encantado microfone da CBN Campinas:


- Hoje dia primeiro de abril. Seis horas, começa aqui o Jornal da CBN Campinas, primeira edição. E vamos às manchetes...


Fazíamos manchetes intercaladas. Uma oriunda da produção de nossos repórteres e outra dos jornais proferida pelo locutor.


Apesar de chegar esbaforido e na velocidade do rádio, tudo desenvolvia-se bem até que anunciei as manchetes do Diário do Povo....


- Avenida Francisco Glicério vai mudar mão de direção...


- Estádio da Ponte Preta vai virar Shopping Center...


E prossegui com as outras manchetes para encerrar com a chamada dos comerciais.

A face do técnico pálida e indagativa mostrou-me que algo havia de horroroso equívoco. O telefone esbravejou, renitente, estrilou de modo convulsivo: habitava o chefe de reportagem do outro lado da linha.


- Em que mundo você está? Não se atinou às manchetes do Diário do Povo? Vire a primeira página.


A editoria do jornal decidiu fazer uma pecaminosa “pegadinha”. Por ser primeiro de abril, Dia da Mentira, produziu uma página com notícias nababescamente inverídicas. E eu, acabrunhado, absorto, percebi a rotunda gafe. Fui manchete vítima das manchetes. Não restou alternativa. Retornei ao bloco seguinte e expliquei aos ouvintes o diagnóstico. 

Quadro de um bobo da corte medieval, feito em pintura a óleo em aproximadamente 1500, inspira as brincadeiras do Dia da Mentira. A obra, chamada de "The Laughing Fool", e feita por Jacob Cornelisz van Oostsanen, está no Museu Davis em Wellesley, Massachusetts, nos Estados Unidos


Vale lembrar que a tradição do Dia da Mentira surgiu na França do século 16, após a mudança do Ano Novo para primeiro de janeiro, quando aqueles que continuavam a celebrar em abril se tornaram alvos de brincadeiras. A data, desde então, é marcada por trotes e piadas bem-humoradas.


Enfim, nos dias que seguiram houve, evidente, cobrança e mais cobranças. Todavia, aproveitei a ocasião para sugerir que, caso me outorgassem a incumbência diária de ser o locutor padrão, não haveria riscos nem atrasos que colocassem em risco a credibilidade da Rádio.


Um mês depois do ocorrido me foi anunciado que a cadeira de locutor do Jornal da CBN seria minha. Desta malfadada ocasião, trilhei por 18 anos em diversos cargos da emissora. Obrigado... Diário do Povo. Dificuldade rima com oportunidade 


P.S: Foram dois Urros! Um de consternação e outro de satisfação.

 


Edilson Damas é jornalista formado pela Puc-Campinas

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