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Monólogos Ácidos

Foto do escritor: URRO
URRO
há 4 horas
5 min de leitura

Da semântica à morte física

Por Marcel Cheida



O segundo turno da eleição para a Presidência da República saiu do olho do furacão para atravessar os tornados e as tempestades de uma campanha curta. O palco das redes sociais — essa babel digital sustentada pelos pilares da internet — envenenou corações e mentes com volumosas poções de batracotoxinas, tão mortais que nem as almas conseguem suportá-las.


Desde 2013, ano dos protestos e das mobilizações contra os valores das tarifas do transporte coletivo, os vendavais de insultos obscurecem os conflitos políticos. O impeachment da presidenta Dilma expôs as garras retorcidas de Eduardo Cunha, Jucá e companhia, que, à época, não era tão limitada assim. De lá para cá, os efeitos dos tuítes do general Villas Bôas — então publicados no Twitter —, em tom de ameaça ao Supremo, ajudaram a cimentar o bolsonarismo, configurado pelas redes sociais e temperado pelo argumentum ad hominem do astrólogo Olavo de Carvalho.


Agora, com as eleições, a chamada polarização se acentuou ainda mais. Um dos polos, liderado pelo presidente Lula, consegue sustentar os ideais do PT e de suas alianças em uma disputa emaranhada por embates jurídicos, denúncias, inquéritos e tormentosos vazamentos de diálogos nada republicanos extraídos dos celulares de banqueiros, ministros e políticos de diferentes matizes. No outro polo, há um vazio de ideais, sustentado pela rejeição ao lulismo e ao petismo e alimentado por sentimentos figadais, nada republicanos nem democráticos.


O Brasil enfrenta solavancos históricos, em idas e vindas cujas fraturas são precedidas por movimentos à beira do mais abjeto arbítrio. Há quem aposte no abismo, desde que consiga aniquilar o adversário ideológico-partidário. Agora, o objetivo da turba é fraturar — não faturar: fraturar — a Constituição Federal para, ardilosamente, desobstruir os muros que impedem a plutocracia oligárquica de se apropriar, de vez, das riquezas e das rendas dos brasileiros. Nada de desconcentrar renda e riqueza. O negócio, sempre o negócio, é concentrar. E o polo bolsonarista não parece pensar em outra coisa, apesar das contradições e incoerências evidenciadas na trajetória política do pai e dos filhos.


Se não, vejamos: todos eles sempre dependeram de cargos públicos, embora busquem gangrenar o Estado por dentro. Ainda capitão do Exército, Jair atentou contra os quartéis. Planejou instalar bombas para ameaçar o regime e conseguir reajustes ou aumentos de soldo. Desqualificado pelo ex-presidente Ernesto Geisel, que o teria considerado “um mau militar”, Jair acabou beneficiado por uma decisão do Superior Tribunal Militar que lhe permitiu passar à reserva como capitão e deixar a farda verde-oliva, contrariando a posição do então ministro do Exército, o general Leônidas Pires Gonçalves.


Ao ingressar na Câmara dos Deputados, integrou o baixo clero e teve uma produção legislativa muito reduzida. Ganhou alguns minutos de celebridade na votação do impeachment da então presidenta Dilma Rousseff: votou em “homenagem” ao coronel Brilhante Ustra, que se notabilizou como torturador durante a ditadura.


Depois, sua trajetória, amparada por setores militares em Brasília e no Rio de Janeiro, encontrou nas redes sociais um novo impulso. Somaram-se a ela os ensinamentos do falastrão Olavo de Carvalho e as estratégias de marketing político, associadas a Steve Bannon, um dos mentores da primeira campanha presidencial de Donald Trump.


A estratégia reunia notícias falsas (fake news), insultos e acusações disparadas a torto e a direito. Os discursos se organizavam em torno de ataques ao principal adversário, o PT, tratado como inimigo. A palavra “comunismo” voltou a ser usada desbragadamente e se popularizou nas redes sociais, nos aplicativos de mensagens, como o WhatsApp, e em diversas ferramentas digitais. Clichês, estereótipos e preconceitos tornam-se recursos eficientes quando disseminados em larga escala. A mensagem atinge em cheio os anseios e desejos latentes de uma parcela significativa da população, descontente com a política e descrente do chamado sistema.


Em mais uma contradição, Bolsonaro explorou os recursos do próprio sistema para se eleger e eleger os filhos, um irmão e a esposa, Michelle, eleita senadora da República.


Na Presidência, revelou-se instável, agressivo e paranoico. Diante da epidemia de Covid-19, mostrou-se desconcertado e nomeou vários ministros da Saúde. Entre eles estava um general que, segundo críticas divulgadas à época, demonstrava desconhecimento sobre aspectos básicos da geografia nacional.


Para construir essa trajetória, os Bolsonaros contaram com a adesão de lideranças pentecostais, tanto ligadas à teologia da prosperidade quanto à teologia do domínio. Alguns de seus expoentes também adotaram, desavergonhadamente, o discurso do insulto. A demonização do adversário encontrou um vasto terreno entre almas esperançosas de um paraíso terrestre homogêneo e totalitário, habitado apenas por pastores e servos.


A expansão das correntes neoevangélicas convergiu para a formação de um cenário politicamente duvidoso, mas convicto de uma lição bíblica aparentemente esquecida: “Então lhes disse: Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:21). Tudo se mistura sob o arbítrio da palavra e do discurso templário, movidos por uma ambição material, terrena e sorrateira. Deus é esmagado pela ambição pecuniária e pelo desejo de quem vê no invisível a possibilidade de superar o invólucro da pequenez, da pobreza e do ressentimento.


Esses aspectos aparecem nas análises de especialistas que apontam a polarização — ou a cristalização dos polos ideológicos do bolsonarismo e do petismo. Assim, realçam a dicotomia como modelo de sociedade: uma suposta luta entre as trevas e a luz. Trata-se de uma metáfora antiquíssima, associada à tradição persa e à figura de Zaratustra. Quem disse que a tradição e o conservadorismo acabaram?


A disseminação do discurso sobre a polarização encontra, porém, um ambiente no qual a disputa dual já está enraizada. Nesse contexto, o pensamento complexo e o raciocínio são desprezados. Os argumentos parecem inúteis, pois já não se distingue o fato da impressão pessoal. Agora, tudo é opinião. Tudo se horizontaliza, permitindo que o arbítrio hierarquize as visões de mundo com o apoio inestimável da força, do patrulhamento e da ameaça.


Os modernos acreditavam que a ciência e a razão libertariam o ser humano da submissão às crenças no divino como único modelo de compreensão do mundo. No século XXI, em plena era pós-moderna, a crença na internet amalgamou ideias de libertação individual: cada pessoa se tornaria produtora e consumidora de conteúdo, sem depender de terceiros para construir conhecimento. É, parece que não está dando certo.


A chamada polarização reveste de novas formas a antiga crença na oposição entre trevas e luz, mobilizada por correntes autoritárias que demonizam os adversários — uma postura típica de setores à direita do espectro ideológico-partidário. São setores que recorrem à ideia de Deus para julgar inimigos políticos, que pertencem, afinal, ao mundo terreno.


É impossível ser imparcial na análise desse cenário, em que abundam ameaças de uso da força, violência, perseguição e negação do diálogo. Chega-se à etapa em que a violência começa a deixar a semântica para se manifestar em ações físicas. É a cultura da morte.


Marcel Cheida é jornalista, professor na Faculdade de Jornalismo na Puc Campinas.





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