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Monólogos Ácidos

  • Foto do escritor: URRO
    URRO
  • 12 de ago. de 2025
  • 6 min de leitura

Herdeiros de Joaquim Silvério dos Reis

Por Marcel Cheida


Ao longo da história, a luta central da civilização tem sido contra a brutalidade dos poderosos. Civilização é o oposto de brutalidade. Uma sociedade civil não permite que os fortes tratem os fracos com brutalidade. Robert Reich, The Guardian. Ex-secretário do Trabalho dos EUA, é professor emérito de políticas públicas na Universidade da Califórnia, Berkeley.



A política é o campo do conflito; mas, negociado. Quando o conflito toma proporções acima da possibilidade da negociação, deixa de ser política. Aí, é a guerra ou suas variáveis, revoluções, sedições, rebeliões com as mais diversas formas. Cair na tentação do conflito sobre a negociação é servir ao diabo. E o diabo sabe negociar ao dizer que não negocia. Na política, a negociação é muito diferente de um trato entre dois ou mais sujeitos em torno da compra e venda de um bem. Os negócios no campo comercial, meramente econômico, implicam num processo cuja previsibilidade é factível. Mesmo quando o negócio soçobra. Na política, não. A interferência de fatores diversos e múltiplos impede que a negociação tenha uma previsibilidade. Trump é evidência da negociação não-negociada.


Ao adotar os métodos do vendedor ou comprador de imóveis, Trump leva para a política um processo mesquinho. Egocêntrico, focado na vantagem personalíssima. Comportamento típico do vendedor que, vez ou outra, vende algo para um otário. Esse narcísico perfil contrasta o comportamento político, fundado nos interesses coletivos diversos.


Por isso, viver a política é uma experiência que leva o sujeito aos extremos, pois sempre há uma tensa relação com a percepção moral de quem governa. A dimensão do indivíduo carrega a experiência moral originária, o que o faz elaborar juízos em todas a situações conflitivas. Decisões políticas demandam tempo, conversação (Ulysses Guimarães dizia que o lubrificante da política é a saliva), raciocínio preciso e paciência. Conhecer o adversário, suas manhas e ideias, é fundamental para o posicionamento das propostas. É claro que o vendedor tem suas estratégias, muitas delas sofisticadas. Na política, a estratégia é permanente e aplicada a cenários complexos, pois cada sujeito representa um universo de grupos de interesse. E nem sempre consensuais. Um parlamentar, por exemplo, pode representar eleitores de comunidades distintas, seja no âmbito territorial, seja no âmbito ideológico. O político sabe ser camaleão e agir conforme o movimento da onda do eleitorado.


Ocorre que as relações de poder obedecem à lei fundamental de Maquiavel: quem está no poder quer mantê-lo, quem não está quer conquistá-lo, a todo custo. Trump foi eleito pela primeira vez num processo que surpreendeu muita gente, pois representou a celebridade de um programa popular, O Aprendiz, o qual expressava o sentido mais abjeto das relações capitalistas empresariais: fracassou? Demissão.


Na sociedade de consumo, a demissão resultante de uma competição é uma das situações mais vexatórias para a vítima. Trump se regozijava e fazia questão de evidenciar o prazer da ordem dada que provocava o sentimento de humilhação a quem a recebia. O programa era estruturado num roteiro polarizado entre o vencedor e o derrotado. Assim, o mundo empresarial era dividido.


Antes de Trump, a primeira celebridade a conquistar a Presidência dos EUA foi Ronald Reagan. O ator badalado por filmes nem tão lembrados. A formação em Economia e Sociologia contribui para Reagan ingressar na política, ser eleito governador da California e, em 1980, presidente dos EUA. E se reelegeu.


Trump não se equipara a Reagan. O ator institui e consolidou à época as diretrizes do neoliberalismo em parceria com a primeira-ministra britânica, Margareth Thatcher. Os efeitos das políticas econômicas sintonizadas alteraram a condução dos programas de vários governos, inclusive nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, na década de 1990.


De lá para cá, Trump deu um cavalo de pau ao manifestar uma política econômica nacionalista, fechada, acompanhada de atos autoritários de governo. Por lá, chamam de trifeta (termo usado no turfe para um tipo de aposta) a unificação do Executivo com a maioria do partido Republicano no Congresso, Câmara e Senado. Depois de nomear juízos conservadores para a Suprema Corte, Donald se viu numa estrutura de poder que o permite desafiar e até mandar o FBI prender a juíza Hannah Dugan, do condado de Milwaukee, por suspender ato do presidente de deportação de um imigrante mexicano sob julgamento.


Donald herda a arrogância de Nixon, que se achava acima das leis e dos direitos civis ao tentar justificar as ações invasivas, ilegais, no comitê do Partido Democrata durante as eleições de 1974, quando o Republicano renunciou à Presidência para não ser cassado.


O perfil narcísico ajuda a explicar os atos personalistas de Trump, inclusive a decisão de publicar uma carta destinada ao governo brasileiro na rede social, com a ameaça da aplicação de tarifas de 50% sobre os produtos importados do Brasil. Num texto de rara abordagem, arrogou-se na defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro ao afirmar:

Conheci e tratei com o ex-presidente Jair Bolsonaro, e o respeitei muito, assim como a maioria dos outros líderes de países. A forma como o Brasil tem tratado o ex-presidente Bolsonaro, um líder altamente respeitado em todo o mundo durante seu mandato, inclusive pelos Estados Unidos, é uma vergonha internacional. Esse julgamento não deveria estar ocorrendo. É uma caça às bruxas que deve acabar IMEDIATAMENTE!


Numa evidente e clara intenção chantagista, Trump anuncia as tarifas superiores à média das aplicadas aos outros países que mantêm relações comerciais com os EUA. Além de afirmar que há “ataques insidiosos do Brasil contra as eleições livres”, destaca a fantasiosa informação sobre um suposto déficit norte-americano na balança comercial com as exportações tupiniquins.


Em tom tirânico, de um cérebro absolutista, o presidente destaca em caixa alta o advérbio imediatamente. Soa como uma ordem inatacável a ser aplicada sem qualquer contestação. Aí, evidente blefe, pois o termo não iria e não reordenou os atos do Supremo Tribunal Federal nas decisões aplicadas a Bolsonaro.


No dia 30 de julho, a Casa Branca divulgou o segundo documento sobre a ordem executiva do presidente sobre os produtos brasileiros tarifados e discorre sobre as supostas ameaças das decisões do ministro Alexandre de Moraes dirigidas aos atos do ex-presidente Jair Bolsonaro. Os termos beiram ao infantilismo entre adolescentes. A pretensão em determinar os rumos do processo sobre a tentativa de golpe e abolição do Estado de Direito é sustentada na desinformação. A “narrativa” praticada pelos bolsonaristas contamina os trumpistas, numa relação espúria na tessitura de vontades mesquinhas e afrontosas à organização política do Estado.


Trump evidencia a combinação da alta vaidade e da pretensão política em situar-se acima de outros tantos presidentes norte-americanos, cuja biografia é delineada por grandeza na perspectiva da história e da cultura norte-americanas. Contudo, não é possível afastar os projetos de dominação dos governos ao longo dos três séculos de existência dos EUA. Desde a posse do vasto território mexicano, na guerra de 1846/1848, sustentada pelo conceito ideológico do Destino Manifesto inspirado em crença religiosa, até a invasão do Iraque sob argumentos improcedentes.


Agora, Trump anuncia a retomada do canal do Panamá, e retomou, a posse da Groelândia e do Canadá, bem como aplica as tarifas de importação a torto e a direito. Senil, diz que tirou a maior nota num teste de QI, cujo teste não apresenta nota maior ou menor. Também chegou a perguntar quem teria nomeado Jerome Hayden "Jay" Powell presidente do FED, Sistema de Reserva Federal dos EUA, equivalente ao Banco Central do Brasil. Ora, foi o próprio Trump, no primeiro mandato, quem nomeou o advogado e banqueiro Powell para a instituição financeira, responsável pelo controle inflacionário e pela gestão do sistema financeiro.


Os efeitos dos atos de Trump sobre o Brasil expõem o projeto da extrema direita no mundo Ocidental, na condenação da política multilateral nas relações internacionais, de modo a buscar um equilíbrio entre as nações. A globalização é nome feio para essa facção. Para enfrentar o multilateralismo e a planetarização do capitalismo empenham-se em alimentar a nostalgia de um tempo passado marcado pelo nacionalismo, pelo imperialismo, pelo colonialismo.


Vários pensadores, como os economistas Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia em 2008, acusou Trump de “megalomaníaco” e o tarifaço de “maligno”. Joseph Stigliz, outro prêmio Nobel de Economia, em 2001, destacou o papel do presidente Lula no enfrentamento aos atos de Trump. Em artigo publicado numa plataforma digital, Stigliz afirma Stiglitz afirma que o Brasil “optou por reafirmar seu compromisso com o Estado de Direito, mesmo com os Estados Unidos aparentemente renunciar à sua própria Constituição.”


Trump, declaradamente, busca intervir na política interna do Brasil, bem como ditar qual deve ser a conduta dos ministros do STF. Impossível aceitar tal iniciativa. Aqueles que apoiam Trump e a família Bolsonaro nessa quadra da história se revelam herdeiros do coronel Joaquim Silvério dos Reis, o delator dos Inconfidentes, entre eles Tiradentes. Após a delação, Silvério dos Reis, obteve algumas prebendas, fugiu para Portugal, mas foi abandonado e esquecido, para ser, posteriormente, lembrado como traidor.


Marcel Cheida é jornalista, professor na Faculdade de Jornalismo na Puc Campinas.



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