Monólogos Ácidos
- URRO

- 22 de abr.
- 6 min de leitura
O falso teatro para uma guerra
Por Marcel Cheida
O site norte-americano Politico publicou o resultado de uma mesa-redonda promovida com seis de seus repórteres especialistas na cobertura da Casa Branca. O resultado não foi dos melhores para o presidente Donald Trump.
O título da publicação foi: A guerra com o Irã oferece um retrato do mundo de Trump. E não é um retrato bonito. Em uma mesa-redonda, seis repórteres da Politico detalham como a guerra no Irã revelou os bastidores do governo Trump.

Tal pauta é incomum entre as publicações jornalísticas. Repórter ou jornalista produz notícias e as publicam. Como diz um aforismo do jornalismo, o jornalista fala sobre o mundo. Quem fala sobre si é político em campanha e paciente de terapia. Nesse caso, a redação do site Político optou por uma mesa redonda com os seis repórteres especializados para “decifrar o momento” vivido na Casa Branca, com o comportamento errático de Trump e os reflexos pelo planeta.
Os jornalistas da mesa-redonda são os seguintes: a repórter da Casa Branca Diana Nerozzi, a repórter sênior do Congresso Meredith Lee Hill, o repórter de defesa Jack Detsch, a repórter de segurança nacional, Daniella Cheslow, o repórter de energia da Casa Branca, Scott Waldman, e a repórter sênior de política Liz Crampton.
Crampton, por exemplo, afirma: “em termos políticos, os republicanos não devem contar com a permanência da coalizão de 2024 que levou Trump de volta à Casa Branca: blocos importantes estão descontentes com o Partido Republicano, principalmente os jovens, e isso torna mais difícil mantê-los no partido nas eleições de meio de mandato e em 2028.”
As eleições no meio do mandato presidencial nos Estados Unidos (midterm elections, assim chamadas por lá) são eventos que condicionam o redesenho dos programas governamentais. Servem para o Executivo ajustar ações e projetos diversos, pois elas sinalizam possíveis derrotas ou vitórias nas eleições para a sucessão do mandato presidencial. Hoje, a mídia norte-americana evidencia um certo consenso sobre a dificuldade do Partido Republicano conquistar maioria, novamente, no Congresso, exatamente por causa das barbeiragens trumpistas.
Os rumos do Partido Republicano, contudo, sofrem com a conjuntura, mas a maioria dos deputados e senadores mantém a adesão ao trumpismo, com exceção de alguns que já se manifestaram contra as iniciativas do presidente.
Repórter sênior na cobertura do Congresso, a jornalista Meredith Hill observa, contudo, a adesão de lealdade dos republicanos ao presidente: “Descobrimos que a grande maioria dos republicanos no Congresso continuará a demonstrar deferência a Trump em relação à guerra e não tem interesse em servir de contrapeso ao uso da força militar por Trump no exterior. A maioria argumenta publicamente que ele está dentro de seus direitos como comandante-em-chefe.”
Scott Waldman, especialista em assuntos de energia, toca na área mais delicada para a sustentação do governo Trump: “Durante anos, Trump condicionou o sucesso de suas políticas aos preços da gasolina e à redução dos custos de energia. Ele está aprendendo agora que uma maneira rápida de começar a fragmentar a coalizão que o levou de volta ao Salão Oval é tomar medidas que provoquem a disparada desses preços. Os preços da gasolina ainda têm muito a subir, principalmente o do diesel, que já está próximo do seu recorde histórico estabelecido durante o governo Biden. Até mesmo a coalizão MAGA está sofrendo com esse choque energético e parece estar se abstendo em algumas eleições primárias e suplementares recentes.”
A guerra, portanto, gera um efeito catastrófico no sistema de produção, escoamento, nas rotas seguras para o transporte do petróleo e outros bens basilares para a estabilidade estratégica no campo da geopolítica amparada no multilateralismo e nos fóruns internacionais. Mas esse modelo sucumbiu nas duas últimas décadas, com as disputas econômicas e tecnológicas entre os Estados Unidos e a China. Economistas afirmam a decadência do modelo multilateral baseado no dólar, o que derrete o poder político amparado na indústria bélica e na do petróleo norte-americano. Trump quer, exatamente, ressuscitar as forças que preservação do modelo dolarizado. Mas, o mundo é outro. O nacionalismo radical insuflado pela religião e teorias supremacistas reveste discursos e ações de governo.
Os comentários dos jornalistas, entretanto, sobre as diversas áreas da gestão presidencial em tempos de guerra não são os mais propícios ou favoráveis aos atos de Trump. O presidente enfrenta ainda um problema constitucional, pois o ataque ao Irã não foi deliberado pelo Congresso norte-americano, conforme o Artigo I, Seção 8, Cláusula 11 da Constituição que prevê: "O Congresso terá o poder de... declarar guerra, conceder cartas de marca e de represália e estabelecer regras relativas às capturas em terra e água." Ou seja, mesmo que denomine de operação militar no Irã, Trump desprezou completamente esse dispositivo constitucional. Mas, o silêncio político do Congresso, em especial da maioria Republicana, ampara, de algum modo, as ações contra o Irã. Há inúmeras cabeças que reconhecem a legitimidade do comando de Trump na guerra, que ele preferiu denominar de operação militar.
Ele mesmo chegou a declarar: “Olha, temos algo chamado guerra - ou, como eles preferem dizer, uma operação militar. É por razões legais. Eu digo 'militar' porque, como uma operação militar, não preciso de nenhuma aprovação. Como uma guerra, devo obter aprovação do Congresso.”
Trump é inconstante. Rebola conforme o ritmo da música levada por outros maestros. Durante a campanha eleitoral em 2024, afirmou e prometeu pôr um fim às guerras ao querer retirar os Estados Unidos de todos os conflitos bélicos. Declarou que não iria começar qualquer guerra e que traria os soldados norte-americanos de volta para a casa.
Fez exatamente o contrário após se encontrar com um dos maestros dessa sinfonia atonal e descompassada: Benjamin Netanyahu, que, no dia 11 de fevereiro, conseguiu conduzir a orquestra para outra escala. Ao se reunir com Trump e assessores, o dirigente judeu estava acompanhado do principal dirigente do Mossad, a agência de inteligência externa de Israel, o correspondente à CIA, e oficiais do Exército. Naquele encontro, a pauta sobre o Irã empolgava Netanyahu que há meses tentava lavar o cérebro de Trump para apoiar o confronto com os persas.
Inicialmente, a reunião foi mantida em segredo, com um número reduzido de participantes, para evitar vazamentos. Mesmo porque, planejar uma guerra exige segredo e furtividade. Semanas depois, contudo, a história foi publicada pelo New York Times, sem nenhum desmentido da Casa Branca.
Para consolidar a decisão de bombardear o Irã e assegurar o plano do governo de Israel, Trump demitiu oficiais generais que o alertaram sobre o risco de uma guerra desnecessária. Até o vice-presidente, James David Vance, J. D., não estava convencido da razão bélica. Porém, aderiu à vontade do chefe ao longo dos dias.
Depois do sequestro do então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, numa operação considerada de sucesso, o ego trumpista inchou. Trump demonstra ignorância sobre outros povos e o diz com clichês e lugares comuns típicos do sentimento xenofóbico. O Irã seria outro país empobrecido e frágil para as garras da águia norte-americana.
Ele chegou a afirmar, sem qualquer compostura: “"Nós vamos atacá-los com extrema força nas próximas duas a três semanas, vamos levá-los de volta à Idade da Pedra, onde eles pertencem." A frase é retumbante, ecoa o sentido ignaro sobre a cultura iraniana e sua história. Tais arroubos servem àqueles que, como Trump, apresentam déficit intelectual combinado com pretensão e arrogância. O problema é que os Estados Unidos dispõem da maior e mais cara máquina bélica do planeta; a questão é como e para o que usá-la?
Os tropeços discursivos de Trump se intensificam na medida que sofre pressões por objetivos anunciados e não alcançados. E por não ter fôlego para enfrentar adversários como a China, que é parceira do Irã. Tanto que há grupos políticos, no Senado e na Câmara, que já tratam de organizar ações para buscar a destituição de Trump por insanidade. Baseiam-se 25ª emenda à Constituição norte-americana, que prevê o impedimento do presidente em razão morte, renúncia ou problemas de saúde. Nesse caso, insanidade.
Isso ocorre quando ele ataca o Papa Leão XIV e, em razão da reação negativa de boa parte do seu eleitorado (muitos católicos), dias depois conclama os assessores e pastores a rezar no Salão Oval da Casa Branca, num gesto de aparente humildade. Trump é cria da televisão, do mundo das celebridades. Alcançou popularidade com o programa O Aprendiz, no qual propunha um jogo de vendas até expressar num gozo a afirmação: “You're fired.”
A religião não passa de algo cosmético e recurso eleitoreiro para ele e muitos outros políticos. Rodeado de assessores que manifestam teatralmente a fé e o discurso contra os tais “inimigos” da crença que cultivam, Trump pouco resistiu ao apelo de Netanyahu e toda a aura em torno do Israel do Velho Testamento. Tudo isso para aliviar ambos, Trump e Netanyahu, de denúncias e processos criminais em seus países. Trump sob a venenosa névoa dos arquivos Epstein, base das acusações e denúncias de pedofilia, tortura contra mulheres e assédio; Netanyahu enfrenta processo por corrupção. Em 2019, foi indiciado por abuso de confiança, suborno e fraude. Ao se reunir com o presidente da Ucrânia, sob a invasão russa, Volodymyr Zelensky, Trump soube que manter a guerra daria respaldo para suspender eleições e se manter no poder. Ele e o colega judeu se aproveitam disso.
Marcel Cheida é jornalista, professor na Faculdade de Jornalismo na Puc Campinas.
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