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Luz Profana

  • Foto do escritor: URRO
    URRO
  • 16 de abr.
  • 4 min de leitura

Os espreitadores

Por Carlota Cafiero


O que move a história, a paz ou a guerra? O que te move, a tranquilidade ou o conflito? Com certeza, você não vive sem um combate e a guerra tem sido o elemento que move a história e as histórias. Para filósofo Friedrich Hegel, a guerra rompe estagnações.


Se a arte é a sublimação da dor, não se cria sem uma crise. Troquemos a palavra “guerra” por “intriga” e teremos o romance, o teatro, o cinema e a telenovela.

Fernando Pessoa escreveu que “o poeta é um fingidor/ Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. Os versos descrevem o processo criativo, em que o poeta converte emoções reais em arte, fingindo-as por meio da técnica, para que o leitor as sinta.


É como o ator que representa uma emoção. Quem a interpreta é o espectador, que filtra a obra por meio das referências vividas ou aprendidas. Quem dá sentido à representação não é o ator, mas o espectador, que de tão atuante deveria ser chamado de espectATOR.


Há uma provocação na palavra “espectador”, que soa como alguém que espia a dor alheia, que a espreita — um “espreita-a-dor”.


Não somos todos nós espreitadores? No Ocidente, sobretudo, observamos o sofrimento de povos do Oriente — árabes, persas, turcos, curdos, judeus, muçulmanos, sunitas e xiitas — em conflitos diversos. Ainda assim, essa complexidade étnica e cultural nos parece tão distante que não conseguimos nos comover nem reagir como deveríamos diante da dor alheia.


Falta-nos compreensão e aquela qualidade que, para Ernesto “Che” Guevara, era a mais bonita de um revolucionário, a “capacidade de sentir profundamente qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo”.


Vivemos um enigma difícil de resolver, pois enquanto houver fome, haverá guerra, e vice-versa. A fome, aqui, traduz-se por “falta”. A falta nos move. No princípio, éramos nômades. Quando não plantávamos, não criávamos animais, quando não havia o sentido de propriedade.


Nos grandes deslocamentos, descobrimos novas paisagens, novas necessidades e desenvolvemos nossa capacidade de adaptação a qualquer meio e clima. Ao desacomodarmos, ampliamos nossos horizontes e evoluímos enquanto espécie.


De maneira bem simplista, podemos concluir que conforto e fartura nos acomodam porque nos arrefecem os instintos de luta. Em entrevista que fiz com Fabrício Carpinejar, para o Correio Popular, o poeta disse que o inferno não é a falta, mas a fartura. Em suma, o excesso, mesmo que de coisas boas, nos consome a alma.


E isso me lembra a “inédita pamonha”, uma bem-humorada reflexão do professor e filósofo Clóvis de Barros Filho, que compara a felicidade com a primeira mordida na pamonha desejada.


Nas palavras do professor: “imagine você, vindo com fome na rodovia, estaciona em um lugar, pede uma pamonha, seu estômago está vazio, aí vem a primeira pamonha, quentinha, envolta em muita palha, você dá a primeira mordida, e essa primeira bocada saboreada e engolida proporciona uma experiência incrível porque o vazio do seu estômago combina maravilhosamente com essa chegada aventureira e desbravadora do primeiro teco de pamonha. Aí você termina a primeira pamonha e conclui que o encontro com a pamonha te trouxe mais tesão e energia pela vida. Você, então, pede a segunda pamonha, mas a segunda já não alegra tanto, pois quando entra, encontra outra no bucho, a segunda pamonha não está tão apetitosa, parece enjoativa, a segunda pamonha é outra experiência quando comparada à anterior. Fica claro que, se a pamonha é do mesmo tacho, da mesma receita, do mesmo milho, mesmo sendo igual está produzindo uma experiência diferente, é porque o comedor da segunda pamonha já não é mais o mesmo, fora transformado pela primeira pamonha. Mas você, fiel à fórmula de felicidade que acabara de descobrir, pede a terceira pamonha, essa começa a incomodar, a apequenar, a produzir dano digestivo, a enjoar de verdade, a entristecer. É uma fronteira entre o mundo do bem e do mal. Uma fronteira que passa no meio da mesma pamonha, do mesmo mundo, mas o que mudou é o agente que experiencia, que sente e se deixa afetar, é você”.


A fartura nos tira do conflito porque nos entorpece a alma, que é livre e peregrina. João Guimarães Rosa usava a expressão “peregrinação álmica” para se referir a um tipo de jornada interior, uma travessia da alma. Todo ser humano, letrado ou não, tem essa necessidade de buscar não se sabe o que nem onde.


Não se trata apenas de uma peregrinação física, mas de um processo espiritual, existencial e subjetivo, em que a pessoa percorre caminhos de transformação interna: dúvidas, revelações, conflitos morais e busca de sentido. A falta, a dor ou a crise é o que nos faz sentir vivos.


Mas, e a guerra? É possível enobrecer o ápice do horror, da brutalidade e do sofrimento humano? 



O catalão Salvador Dalí foi um dos artistas que mais traduziu o horror das guerras. No início da Segunda Guerra Mundial, ele estava morando na Califórnia e ainda estava impactado pelos horrores da Guerra Civil Espanhola (1936-39). Foi nesse contexto que Dalí pintou “A Face da Guerra” (foto), que exibe um crânio com olhos e boca preenchidos por outros crânios, e dentro deles, mais outros, como num pesadelo sem fim.


A obra foi feita entre 1940 e 41, uma época ainda pouco bombardeada pelas imagens, mas traduz a dor de guerras de todos os tempos.


Não é de hoje que a guerra deixou de ser vivida como tragédia concreta e passou a ser consumida como narrativa imagética e entretenimento. Ainda não sabemos qual ou quais obras artísticas representarão as guerras destas primeiras décadas do século 21.


Em 1967, Guy Debord já acusava a nossa insensibilidade no livro “A Sociedade do Espetáculo”, quando os conflitos armados passaram a ser mediados por imagens, fotografias e vídeos de correspondentes de guerra.


Com a cobertura massiva dos grandes conflitos armados, entra a responsabilidade de quem vê: se ver já não é inocente, o espectador converte-se em espreitador – alguém que consome a dor do outro, sem transformá-la em ação e reflexão.



Carlota Cafiero é jornalista e historiadora da arte. 

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