Câmara Escura

Atualizado: 7 de out.
Memória Veneno
Por Marta Fontenele
Um mergulho no trabalho invisível das memórias que armazenamos ao longo da vida e que podem se tornar perturbadoras na meia idade e velhice. A experimentação como linguagem criativa ajuda a dar vida à personagem Sued (Stella Vilela), mulher misteriosa que se defronta com uma rotina de pesadelos que lhe tiram a paz. Durante o dia ela tenta “fazer as pazes” com as memórias, revendo fotografias do passado, ou tentando distrair-se no ambiente doméstico, mas quando chega à noite, os pesadelos voltam a lhe tirar o sossego.
Tudo é experimental, um filme de baixa produção, uma contribuição para pensarmos sobre as memórias como parte da estrutura invisível de nossas experiências de vida, desde a infância. A memória tóxica é um conteúdo invisível, mas potente. Ela não nasce na vida adulta, ela começa lá atrás, na infância.
O filme não é uma inspiração, creio que é parte de um longo período em que penso sobre memórias de pessoas e narrativas. A provocação é sobre como nós armazenamos nossas próprias memórias para que elas não retornem em forma de pesadelos.

O conflito se desenvolve ao ponto de Sued decidir enfrentar “as ruínas” de suas memórias, revisitando lugares simbolicamente aos quais evitou olhar ao longo da vida. As filmagens passam por espaços e ruas de valor histórico e afetivo em Campinas, como paisagens da Vila Industrial e o casarão em ruínas da Fazenda Jambeiro, locações que carregam em si camadas de memória, ecoando o estado interior da personagem.
Esses cenários, aliados à montagem da fotógrafa, artista visual e antropóloga Carolina Engler e à criação de takes com imagens sintéticas, do artista plástico, desenhista e editor Renato Munhoz, criam uma geografia afetiva onde o passado e o presente se confundem.
O ambiente da casa é o microcosmo de Sued, onde o conflito tenta encontrar respostas. O filme tem uma trilha sonora, mas incorpora silêncios e lentidão. O mundo está muito ruidoso. O cinema das trilhas perturbadoras amplia tensões e nem sempre fazer barulho significa comunicar sentimentos e percepções. Com trilha sonora de Gustavo Kudo, o tom lento e intimista acompanha o roteiro de poucas falas e pausas generosas nas cenas do filme.
Essa escolha estética transforma a obra em uma experiência em que o vazio sonoro se torna tão expressivo quanto a imagem. Com narrativa que abre espaço à poesia, o filme não busca respostas fáceis, mas pretende oferecer indagações sobre a potência das lembranças na vida adulta — um trabalho silencioso da memória que, se negligenciado, retorna com força desestabilizadora na maturidade. Uma experiência poética que nos provoca sobre a ficção do viver, armazenar e esquecer.
Marta Fontenele é jornalista, mestre em Gerontologia (Unicamp), professora, roteirista, editora em media web e diretora do curta Memória Veneno, realizado com recursos do Fundo de Investimento Cultural de Campinas (FICC), da Prefeitura de Campinas, por meio da Secretaria de Cultura e Turismo.



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