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Câmara Escura

  • Foto do escritor: URRO
    URRO
  • 16 de abr.
  • 3 min de leitura

Guerra, discurso e poder: o Oriente Médio entre cinema e realidade

Por Hamilton Rosa Jr.


O atual cenário de tensão envolvendo Donald Trump, Benjamin Netanyahu e o Irã não surge como um episódio isolado, mas como mais um capítulo de uma longa tradição em que guerra, narrativa e poder se entrelaçam de maneira indissociável. O que está em jogo não é apenas a possibilidade de um novo conflito, mas a forma como ele é pensado, justificado e, sobretudo, aceito. Nesse sentido, o cinema norte-americano recente não funciona apenas como representação, mas como um espelho crítico das estruturas que tornam a guerra possível.


Em Zona Verde (2010) e Vice (2018), a guerra aparece menos como um fato inevitável e mais como uma construção discursiva. Não se trata apenas de reagir a ameaças, mas de organizá-las narrativamente. A ideia de “segurança nacional” opera como eixo legitimador, evocando perigos que precisam ser neutralizados antes que se concretizem. As “alianças históricas”, especialmente entre Estados Unidos e Israel, funcionam como sustentação moral e estratégica, criando um senso de obrigação quase automática. Já as “pressões geopolíticas” ampliam o quadro: rotas energéticas, zonas de influência, disputas silenciosas entre potências. O que esses filmes revelam é que a guerra, antes de ser travada no campo, é construída no discurso — e é ali que ela ganha sua aparência de inevitabilidade.


Mas há uma camada ainda mais inquietante. Mera Coincidência (1997) desloca o olhar para dentro da própria máquina política, sugerindo que a guerra pode também ser um instrumento de encenação. No filme, um escândalo sexual é encoberto pela fabricação de um conflito fictício — uma guerra como espetáculo, produzida para consumo midiático. A sátira, no entanto, não soa absurda; ao contrário, revela o quanto a lógica da política contemporânea pode se aproximar da lógica da ficção.


Nesse ponto, a realidade tensiona perigosamente a metáfora. O nome de Jeffrey Epstein, associado a um dos escândalos mais perturbadores das últimas décadas, já orbitou figuras de poder, incluindo Donald Trump. Independentemente das conclusões formais, o simples entrelaçamento entre poder político e crise de imagem levanta uma questão essencial: até que ponto decisões externas podem ser atravessadas por necessidades internas? A guerra, nesse contexto, deixa de ser apenas estratégia e passa a ser também linguagem — uma forma de reorganizar narrativas, deslocar atenções, redefinir prioridades.


Enquanto isso, filmes como Decisão de Risco (2015) e Good Kill (2014) mostram que, uma vez iniciada, a guerra se transforma em um campo ético cada vez mais difuso. A tecnologia promete precisão, mas entrega dilemas. A distância física entre quem decide e quem morre não elimina a responsabilidade — apenas a torna mais abstrata, mais difícil de encarar. A guerra contemporânea não é mais apenas destruição; é também cálculo.



Por outro lado, Guerra ao Terror (2008) e Sniper Americano (2014) devolvem ao conflito sua dimensão mais concreta: o corpo, o medo, o trauma. São lembretes de que, por trás de qualquer formulação geopolítica, existem indivíduos submetidos ao limite da experiência humana. A abstração do poder encontra, inevitavelmente, a materialidade da dor.


Hoje, porém, o que torna esse cenário particularmente alarmante é o grau de escalada possível. O confronto envolvendo Estados Unidos, Israel e o Irã parece operar em um limiar perigoso, onde erros de cálculo podem ter consequências irreversíveis. A presença de capacidades nucleares — mesmo que como instrumento de dissuasão — introduz uma variável que transforma qualquer conflito em potencial catástrofe. Mais do que isso: a interdependência das alianças e rivalidades globais cria o risco de uma reação em cadeia, em que um conflito localizado se expande, arrastando outras nações, outros interesses, outras guerras. Não se trata apenas de um confronto regional, mas da possibilidade de um colapso sistêmico.


Por fim, Leões e Cordeiros (2007) sugere que a guerra não é apenas decisão de líderes, mas resultado de uma engrenagem mais ampla, que envolve mídia, opinião pública e silêncio coletivo. O discurso que legitima a guerra não nasce no vazio — ele encontra eco, adesão e, muitas vezes, indiferença.


Talvez seja esse o ponto mais perturbador: a guerra não começa com bombas, mas com narrativas. E, quando essas narrativas se consolidam, o conflito já está, de certo modo, em curso.

O cinema nos mostra isso com clareza incômoda: não é a guerra que imita a ficção, mas a ficção que revela, com antecedência, os mecanismos pelos quais a guerra se torna possível — e, muitas vezes, inevitável.


Veja onde assistir os filmes citados no texto


Guerra ao Terror - disponível no Amazon Prime Video (streaming ou aluguel)


Mera Coincidência - disponível no Prime Video e no Max (HBO)


Sniper Americano - disponível na HBO Max / aluguel (Apple TV, Google TV)


A Hora Mais Escura - disponível na Prime Video e com exibições regulares no Paramount Network, via Claro


Decisão de Risco - disponível no Prime Video ou aluguel digital


Zona Verde - disponível na Apple TV, Amazon Video, Google Play, Claro Video.



Hamilton Rosa Jr. é cineasta, professor e jornalista.

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