Câmara Escura
- URRO

- 16 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 10 de dez. de 2025
O cinema como delírio
Por Bruno Zambeli
Em 2014, enquanto o Brasil fervia em disputas ruas e narrativas, contradições, corpos expostos ao calor político, um pequeno grupo no Rio de Janeiro decidiu não pedir permissão: simplesmente abriu o peito e ligou a câmera. Foi o início de uma prática que recusava o controle, o enquadramento disciplinado, a narrativa limpa.
O Anarca Filmes não queria ser cinema “de festival”, de premiações, mas sim um grito de revolta, uma linguagem viva, uma forma de desafiar as imposições e implodir a lógica, fosse ela do mercado ou dos detentores da arte, estejam eles de que lado for.
Nascido de artistas, performers, agitadores culturais, dissidentes e amantes do caos criativo, o coletivo encontrou no vídeo e na performance um lugar para torcer a realidade até que ela revelasse suas fissuras. A estética, desde o começo, é de choque: cores cruas, câmera inquieta, montagem pulsante, corpos em fricção. A ideologia, também: desobediência, corpo dissidente, prazer como política, erro como método, experimentação como ética.

A estética da urgência
O que caracteriza o cinema do Anarca não é apenas o experimentalismo técnico, mas a forma como a câmera parece tentar acompanhar um corpo que não quer ser capturado. Há uma recusa sistemática de narrativas lineares, personagens tradicionais, estruturas aristotélicas. Seus filmes reivindicam a instabilidade como forma e conteúdo.
Em suas obras, a cidade é sempre mais viva do que o roteiro. Há ruído, há glitch, há improviso, há política. Não a política institucional, mas aquela que brota de um corpo em risco: política da carne, da festa, do suor; política das sexualidades dissidentes que o cinema hegemônico ainda insiste em não contemplar ou compreender, em sua maioria.
Ao longo da década, o coletivo produziu filmes, experimentos, performances e registros que atravessam fronteiras entre cinema, artes visuais e rituais. Obras como Bad Galeto: No Limite da Morte (Amanda Seraphico, Def Ex Machina, Lorran Dias, 2017); Waleska Molotov (Amanda Seraphico, 2017); X-Manas (Clari Ribeiro, 2017); Trópico Terrorista (Lorran Dias, 2016), além de vídeos híbridos, performances e festas que misturam delírio e política como se fossem inseparáveis. E sim, nos provam que o são.
Há filmes que parecem sonhos gravados com a câmera encostada na pele, outros são investigações sobre violência, espiritualidade, dissidência e amor. Não importa o tema: sempre existe a impressão de que o Anarca está filmando aquilo que “não deveria” ser filmado. E essa é exatamente a chave da sua força.
Dez anos de fúria organizada
Em 2024, o Anarca Filmes completou 10 anos de existência. Dez anos de filmes feitos sem dinheiro, sem obediência, sem concessões. Dez anos de sobrevivência estética e política num país que castiga corpos desviantes, que tenta disciplinar o desejo, que censura o que não entende e mata o que não aceita.
A celebração dos dez anos foi tão múltipla quanto o próprio coletivo e encontrou seu auge na “Antologia do Delírio”, uma grande retrospectiva que reuniu obras, registros, materiais e restos de processo, como se a história do grupo precisasse ser contada não por uma linha do tempo, mas por uma constelação: fragmentos, ensaios, vestígios de vidas que atravessaram a câmera e foram atravessadas por ela. Poesia da melhor espécie, banhada de revolta e insubmissão.
Ao longo desses onze anos, o grupo nunca se submeteu aos caprichos do mercado audiovisual brasileiro: editais que filtram corpos, festivais que podam estética e discurso, exibidores que pedem “menos política”, críticos que esperam “mais narrativa”. Nada disso moldou o Anarca Filmes. Eles continuam sendo um cinema que não pede desculpas, abaixa a cabeça ou faz concessão. São, pois, o que há de melhor e mais interessante no underground cinematográfico brasileiro.
Assista ao curta Bad Galeto - No Limite da Morte
Bruno Zambelli é escritor, diretor teatral e ator.



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