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Convescote

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    URRO
  • há 3 dias
  • 4 min de leitura

Atualizado: há 1 dia

Colóquio de natureza aberta

Por Cunhambebão Neto


Era uma noite fria de inverno e o vento uivava entre as esquinas enquanto a lua prateava a escuridão com seu véu. A cidade não constava em mapa algum. Ficava encravada no oco do mundo, como se tivesse sido esquecida por Deus e arquivada por engano em algum canto da história. As ruas eram estreitas, de pedra antiga, e o vento parecia carregar vozes que não pertenciam àquele tempo, nem a tempo nenhum.


No ponto mais alto desse lugar inexistente, erguia-se uma construção igualmente improvável: uma sala de paredes altas, janelas estreitas e luz amarelada pelo tempo. Não havia placas ou registro. Ainda assim, naquela noite, nomes que atravessaram séculos, guerras, livros e ruínas estavam reunidos ali.


Afonso Cruzado, jornalista fantástico que transita lá e cá, adentrando livros e sonhos, realidade e magia, ajustou o microfone. Sobre a mesa, nenhum papel.


Lá fora, o vento aumentava, enquanto vozes ecoavam por todos os lados.


No salão principal, cadeiras eram ocupadas por presenças que não pediam licença ao tempo: poetas, romancistas, pensadores. Alguns traziam nos olhos a memória de trincheiras. Outros, o silêncio de quem tentou nomear o indizível.

Afonso limpou a garganta:


“Boa noite aos vivos, aos mortos e aos que ainda não se decidiram.”


Silêncio.


“Estamos aqui para falar sobre a guerra e, se houver tempo, sobre paz.”


O jornalista então ligou o gravador, o resto é história.


Expressão de Candido Portinari. O artista optou por não fazer nenhuma referência a armas de fogo no painel "Guerra". Para retratar a violência dos conflitos, ele preferiu retratar mulheres com expressões de desespero


O texto a seguir consiste na transcrição integral de um encontro promovido pelo jornalista Afonso Cruzado, cuja ocorrência não pôde ser confirmada por meios convencionais de verificação. O local do evento não corresponde a qualquer coordenada geográfica reconhecida, sendo descrito, de forma recorrente nas fontes consultadas, como “um ponto elevado em uma cidade inexistente” ou, “um espaço intermediário entre registros de tempo”.


Os participantes listados nesta transcrição não compartilham contemporaneidade histórica, ainda assim suas falas são apresentadas como proferidas em regime de simultaneidade, sem indicação de mediação tecnológica, reconstrução posterior ou montagem editorial. Não há evidência de tradução simultânea, embora não se identifiquem barreiras linguísticas no material registrado.


As rubricas, incluindo indicações de pausa, sobreposição de falas, manifestações da plateia e ocorrências sonoras, foram mantidas conforme constam no registro bruto. Ressalta-se ainda que determinadas reações não puderam ser associadas a fontes identificáveis.


O mediador, Afonso Cruzado intervém ao longo do encontro sem seguir protocolo condução jornalística, alternando entre formulação de perguntas, comentários e inserções de natureza não classificável.


Não foi possível determinar com precisão a data do evento. Referências internas sugerem a coexistência de múltiplos contextos históricos. O material é apresentado, portanto, não como reconstrução ficcional, mas como documento cuja natureza permanece em aberto.


A transcrição tem início no ponto em que o registro sonoro se estabiliza:

 

[chiado. uma pancada seca no microfone. ajuste brusco]


Afonso Cruzado - Estamos gravando. Se alguém discordar, que fale agora — ou carregue isso para sempre.


[risos curtos. vaias dispersas]


Afonso Cruzado - O que é a guerra?


George Orwell - (sem olhar para ninguém). Toda propaganda de guerra, todos os gritos, mentiras e ódio, vêm invariavelmente de pessoas que não estão lutando.


[murmúrios: “verdade”, “sempre assim”]


Ernest Hemingway - (abre a garrafa, não serve - bebe direto). Nunca pense que a guerra, por mais necessária ou justificada, não seja um crime.


[aplausos. alguém assovia alto]


Afonso Cruzado - Crime aceito.


Leo Tolstoy - A guerra é tão injusta e feia que todos os que a fazem precisam sufocar a voz da própria consciência.


Afonso Cruzado - Então não é ignorância. É escolha.


[interrupção simultânea. vozes sobrepostas]


Eduardo Galeano - As guerras mentem. Nenhuma guerra confessa: ‘eu mato para roubar.


[aplausos. uma vaia prolongada]


Voz na Plateia não identificada - E quem acredita?


[risos. tensão]


Pablo Neruda - (olha para fora da sala). E uma manhã tudo estava ardendo, e uma manhã as fogueiras saíam da terra devorando seres, e desde então fogo, pólvora desde então, e desde então sangue.


Afonso Cruzado - Quando foi?


Gabriel García Márquez - A guerra continuava, sempre a mesma guerra, e ninguém sabia por quê.


[risos nervosos]


Afonso Cruzado - Então não começou. Só continua. Quem sustenta a guerra?


Hannah Arendt: A violência pode destruir o poder; é totalmente incapaz de criá-lo.


Voz na Plateia não identificada: Mas sustenta!


[aplausos e vaias simultâneos]


Jean-Paul Sartre - Quando os ricos fazem a guerra, são os pobres que morrem.


[aplausos fortes. alguém grita “sempre!”]


Afonso Cruzado - E os ricos?


[silêncio. uma cadeira arrasta]


Susan Sontag - No ‘nós’ não se deve confiar quando se trata da dor dos outros.


[murmúrios desconfortáveis]


Afonso Cruzado - Então não existe “nós”.


Vozes sobrepostas:  Existe sim! Depende! Nunca existiu!


[microfonia aguda]


Afonso Cruzado - Depois da guerra, o que sobra?


Mario Benedetti - Depois de cada guerra alguém tem que limpar. Não vão se arrumar sozinhas, digo eu, as coisas.


Afonso Cruzado - Vamos tentar outra palavra: Paz!


[cadeiras se mexem. alguém ri sem motivo]


Mahatma Gandhi - Não existe caminho para a paz; a paz é o caminho.


Voz na plateia não identificada: Fácil falar!


[vaias]


Martin Luther King - A verdadeira paz não é apenas a ausência de tensão; é a presença da justiça.


[aplausos mais fortes. alguém levanta]


Rigoberta Menchú - A paz não é apenas a ausência de guerra; é a presença da justiça, da igualdade e do respeito pelos direitos humanos.


[aplausos longos. coro de concordância]


Afonso Cruzado - Então a paz exige tudo. E quem está disposto?


[ninguém responde]


Paulo Freire - Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão.


Albert Camus - A tarefa talvez seja impedir que o mundo se desfaça.


Afonso Cruzado - Talvez já seja tarde.


[interrupções. vozes sobrepostas]


Ailton Krenak - Precisamos ter coragem de ser radicalmente vivos.


Afonso Cruzado - Curioso, ninguém aqui defende a guerra. E, ainda assim...


[interrompido por vozes da plateia]


Continua sempre! Nunca parou!


[sobreposição caótica]


Afonso Cruzado -Talvez o problema não esteja nas respostas.


[chiado crescente]


Talvez esteja em quem escuta.


[falha brusca]


Voz da plateia não identificada - “No ‘nós’ não se deve confiar…”


[gravação interrompida]



Cunhambebão Neto é o pseudônimo de um atento observador das artes reais e trivais da cidade.

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