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URRO
há 5 dias
10 min de leitura

Perdas e danos para o planeta para a sociedade

Por Cibele Buoro


A tecnologia, com a presença cada vez intensa da Inteligência Artificial, impõe impactos aos recursos naturais e aos direitos humanos. Vivenciamos uma nova etapa do capitalismo, que depende da captura de dados dos indivíduos para obter lucros a partir de interferências nos comportamentos e decisões humanas. Dessa forma, a ascensão financeira das big techs e a imposição de uma padronização de mundo por parte da Inteligência Artificial dependem da extração de recursos minerais do planeta, sem nenhuma compensação à sociedade. A atividade de mineração é predatória ao meio ambiente, ao mesmo tempo que o capitalismo de vigilância e de dados promovem a exploração do trabalho e a depreciação dos diretos humanos.


A considerar que a existência da Inteligência Artificial só é possível pela atividade extrativa mineral - que, por sua vez, causa danos irreversíveis ao meio ambiente -, as questões que se pretende apresentar a seguir envolvem os impactos da tecnologia e da Inteligência Artificial sobre a continuidade dos recursos naturais indispensáveis à vida e seus reflexos aos direitos humanos.


Os eventos extremos - já em curso no planeta em decorrência da opção pelo modelo de produção capitalista desde a Revolução Industrial - tendem a se intensificar pelos conflitos da atividade extrativista que sustenta os novos modelos capitalistas da era digital: da vigilância, de dados e da atenção.


Como mensuramos o valor da água, clima, solo, floresta, ecossistemas equilibrados, direito dos animais à vida no planeta, ar saudável, alimentação livre de agrotóxicos? Esta lista é maior, mas a proposta com esta indagação é refletir sobre benefícios e serviços ecossistêmicos ofertados gratuitamente pela natureza que, há tempos, tem sido devastada pela demanda potencializada da tecnologia, sobretudo da Inteligência Artificial, por minérios.


A autora Kate Crawford chama a atenção em sua obra Atlas da IA sobre os custos da mineração impostos à sociedade. Segundo Crawford, os custos serão suportados tanto por pessoas vivas quanto por aquelas que ainda não nasceram. Crawford faz a relação da mineração com as guerras já ocorridas entre nações: as retiradas constantes de minerais, água e combustíveis fósseis foram sustentadas pela violência das guerras, da poluição, da extinção e do esgotamento.


Afirma Crawford: “os efeitos da computação em larga escala podem ser encontrados na atmosfera, nos oceanos, na crosta terrestre, no tempo profundo do planeta e nos impactos brutais sobre populações desfavorecidas ao redor do mundo”.

Isto porque a computação, para funcionar, depende de baterias. A Inteligência Artificial não funciona sem minerais e sem a computação. Data centers não poderão existir sem água à sua disposição. “A IA avança sobre o capital, o trabalho e os recursos da Terra – e exige quantidades enormes de cada um deles.”


A considerar que os dados capturados pelos mecanismos digitais das plataformas a partir das ações e comportamentos dos indivíduos tornou-se o bem mais valioso do capitalismo de vigilância, qual o destino do planeta Terra? A extração dos minérios necessários para a existência e funcionamento da Inteligência Artificial e da computação estão na contramão da necessidade de se repensar o modelo de produção capitalista e mitigar os eventos extremos que já estão acontecendo.


Walter Lippold e Deivison Faustino contribuem para a análise da exploração predatória dos recursos naturais por outro ângulo: o uso da força de trabalho humano para extração do meio ambiente em busca de um estado de bem-estar digital, nomeada pelos autores de lógica produtiva autofágica. A Inteligência Artificial potencializa o imperialismo ao reduzir o Sul Global a um território de mineração extrativista de terras raras, de dados individuais por meio de plataformas e internet.


Luzia Pinta: obra de Giselle Beiguelman


Capitalismo de dados e direitos humanos


O novo modelo capitalista digital de dados prevê a captura de informações por mecanismos automatizados, processamento e análise do maior volume e diversidade de dados com objetivo de elaborar padrões que orientem previsões e consigam interferir em comportamentos e tomadas de decisão. E interferir em comportamentos e decisões contrariam os Direitos Humanos.


O capitalismo de dados, da vigilância e atenção são, no momento, os modelos de negócios que dependem do roubo de dados dos cidadãos, sendo a ‘atenção’ um recurso valioso e escasso e, por isso, extremamente disputado.


Dessa forma, a disputa pela atenção como método lucrativo do capitalismo de dados depende e aposta no desenvolvimento de uma arquitetura que estimule decisões para fins de interesse do capitalismo/imperialismo, com efeitos sociais, políticos e econômicos desfavoráveis às populações vulneráveis, além de pressão sobre as democracias, justiça legal e climática e direitos sociais, todas questões em disputa pelos direitos humanos.


A captura de dados, também chamada de acumulação primitiva de dados, submete os indivíduos ao colonialismo. O colonialismo de dados impõe aos indivíduos um modo de vida, uma regra, uma rotina, a partir da lógica extrativista de informações.

Esse modo de vida imposto para direcionar as sociedades aos interesses do capitalismo e do lucro desvia a atenção dos indivíduos para o que realmente importa: o clima, a preservação da vida no planeta, o estudo, a não exploração e precarização do trabalho, a justiça social, o direito a ter direitos, entre outros.


E esse roubo da atenção e o desvio para o banal, ao invés do que realmente importa, é propiciado pela introdução e ampliação das novas tecnologias na rotina dos indivíduos. As novas tecnologias e a Inteligência Artificial têm ressignificado o valor e a proposta da vida no planeta, tanto de indivíduos como de outras formas vivas, como animais e ecossistemas.


O lixo eletrônico e as roupas descartadas enviados para os países da África são só a ponta do iceberg. Trata-se de uma forma de racismo digital e ambiental quando a qualidade de vida e a deterioração ambiental de países pobres não importam, replicando os moldes do colonialismo clássico baseado na dominação de terras estrangeiras mediante imposição de métodos violentos de trabalho (como a escravidão) e viabilização da pilhagem.


Estamos enfrentando uma tecnologia arquitetada e em funcionamento para dominação política, econômica e social de nações e territórios. O modo de vida criado, publicizado e exposto pela tecnologia via redes sociais impõe e intensifica a racialização e a exclusão, pois está em voga o padrão da branquitude. Chamadas de big techs (mas que, na verdade, atuam como empresas de publicidade) faturam com a mineração de dados, metadados e biodados vitais dos cidadãos para aproveitamento de seus lucros privados. São dados sigilosos dos sistemas de saúde, educação, justiça, sugados pelos monopólios informacionais.


Estamos diante de um saque milionário de informações transformadas em ativos econômicos por corporações imperialistas que extraem, armazenam e processam dados, expertise e padrões sociais, quantificando parte fundamental das nossas vidas para melhor mercantilizá-las. Há de lembrarmos que o capitalismo sempre conviveu com a violência e o genocídio colonial.

A imprensa noticia e apresenta as big techs como empresas visionárias e geniais da contemporaneidade e do novo capitalismo digital, escondendo os métodos de extração primitiva de dados por trás de seus valores e lucros. Isto porque, a obtenção, controle e análise de dados, coletados com ou sem consentimento dos indivíduos pelas big techs remetem à mesma disputa colonial padrão quando os países colonizadores partiam em busca de matérias-primas necessárias às suas expansões comerciais e financeiras.

Novos capitalismos e racismo algorítmico


Segundo Faustino e Lippold, a racialização fixa os sujeitos nas representações objetificantes criadas pelo colonialismo e enclausura toda a humanidade pelas máquinas que outrora criou. Sobre a branquitude, Faustino e Lippold afirmam que a universalização dos referenciais brancos permite o enriquecimento branco a partir da exposição do quanto ser branco é um privilégio de classe, uma vez que algoritmos são uma produção humana e, portanto, carregam valores subjetivos intencionalmente produzidos para gerar efeitos econômicos no sistema capitalista de dados.


A IA promove vieses de discriminação racial, potencializando os que já existem na sociedade. O racismo também potencializa grupos hegemônicos cujos efeitos são oprimir os grupos denominados como minorias (mulheres, lgbt, negros) quando são, na verdade, a maioria.


Denúncias, páginas de reivindicações dos grupos feministas, de gênero, antirracistas, entre outros, podem ser invisibilizados pelas plataformas, ao mesmo tempo em que hiperviabiliza os interesses dos brancos, favorecendo o machismo, a misoginia, o racismo, homofobia, intolerância religiosa, entre outros.


Portanto, a racialização algorítmica é uma instituição produzida e controlada por interesses capitalistas que têm, no comando, a branquitude ocidental. Conforme afirma Crawford, referindo-se à força de trabalho que observou no Vale do Silício: “engenheiros jovens, em sua maioria homens sem responsabilidades familiares ou comunitárias, estão construindo ferramentas que policiarão ambientes de trabalho.”


As manifestações da branquitude, portanto, estão disseminadas e distribuídas nos conteúdos de internet, bancos de imagens, criações da IA, nos discursos e estética da cultura das mídias sociais apresentadas como parâmetros de humanidade.


A economia psíquica dos algoritmos se impõe como nova etapa do capitalismo: a captura de dados para provocar alterações emocionais e decisórias nos indivíduos. Essa economia psíquica são processos de captura, análise e utilização de informações psíquicas e emocionais extraídas de dados e ações dos usuários em plataformas como redes sociais, aplicativos, serviços de streaming, plataformas de compartilhamento, conteúdo audiovisual, entre outros.


Esse processo compreende o que chamamos de capitalismo de dados. Segundo os autores Fernanda Glória Bruno, Anna Carolina Franco Bentes e Paulo Faltay, os lastros de ações e interações deixados pelos usuários nas redes sociais como cliques, curtidas, compartilhamentos visualizações e postagens – que também contém carga psíquica e emocional, não são apenas as informações que interessam às big techs.


Modificar, alterar, controlar ou interferir no comportamento humano a partir de dados capturados no mercado de dados pessoais é o mais valioso produto do capitalismo digital para objetivos diversos, “do consumo ao voto.” O capitalismo de vigilância como modelo de negócios depende da captação de dados dos indivíduos para comercialização – mas não para venda de produtos, como se fez até então – mas da venda do acesso em tempo real ao fluxo de ações online de cidadãos. Com a coleta destes dados e por meio de análises algorítmicas, surge um novo produto que pode alterar resultados eleitorais, por exemplo.


Trata-se da possibilidade de influenciar e modificar comportamentos que gere rentabilização aos grupos e empresas que fizerem uso deste produto digital desenvolvido e possibilitado pelo capitalismo da vigilância, que consiste na captura de todo o tipo de ação, reação, manifestação ou simples existência via perfis criados nas redes sociais.


Botões de curtir, de amar, de chorar, disponíveis no Facebook, atualizações de status, informações que os usuários disponibilizam na aba ‘sentimento/atividade’, comentários em lives no Instagram ou em páginas de produtos, de influenciadores, de partidos políticos, a pausa em um vídeo ou salvamento, a atenção a uma determinada postagem, padrão de navegação e um vídeo, são algumas das formas como funciona esse modelo de negócios – o capitalismo da vigilância – sustentando pelas plataformas digitais.


Para que esse modelo de negócio das plataformas digitais funcione e gere lucro é condição fundamental que os usuários gastem o maior tempo possível em redes sociais ou plataformas digitais, para que seus dados sejam extraídos e seus comportamentos se tornem “reconhecíveis e suscetíveis a intervenções.”


Nota-se como esse modelo de negócio – o capitalismo da vigilância – é uma ameaça aos direitos humanos, às mulheres, aos negros, à comunidade LGBTQQICAPF2K+. A partir da captura de dados e construção de modelos algorítmicos direcionados para alteração de comportamentos, o machismo, a misoginia, a intolerância de gênero ou religiosa poderá ser estimulada e incentivada a partir de conteúdos políticos, culturais e comerciais produzidos com essa finalidade.


Como exemplo, podemos ilustrar esta explanação com o emprego das palavras ‘comunismo’, ‘esquerda’ ou ‘petista’ em conteúdos que pretendem discriminar movimentos sociais vinculados às reivindicações historicamente surgidas e disputadas pelos direitos humanos, ao contrário do que pretendem os mercados capitalistas.


O emprego destas palavras nos conteúdos estrategicamente produzidos para serem compartilhados e impulsionados nas redes e alcançarem o maior número possível de indivíduos, estão associadas a falsas ou errôneas interpretações históricas/conceituais e propositalmente interpretadas para confundir e criminalizar pessoas, eventos históricos ou instituições associadas a essas palavras. E isso modifica ou altera comportamentos.


Outro exemplo que pode ser citado é como as big techs lidam com os conteúdos jornalísticos independentes. Um caso recente tem sido o banimento de páginas de jornalistas investigativos, fato que compromete a liberdade de imprensa, de expressão e da entrega ao cidadão de informações de interesse público e de pluralidade de versões e compreensões dos fatos, conforme prevê a Constituição Federal de 1988.


A Carta Magna menciona a informação como um direito, como se lê no capítulo I – Dos direitos e deveres individuais e coletivos, artigo XIV: “é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional.”


Porém, em maio de 2026, a Meta – uma big techs da publicidade – suspendeu o perfil jornalístico do Tapajós de Fato, no Instagram, sem aviso prévio, sem explicação e sem um canal de defesa. A conta somava mais de noventa mil seguidores e atuava como um dos principais meios de mídia investigativa e independente de notícias da região amazônica. Este caso é um alerta sobre o poder das big techs de impulsionar páginas e conteúdos de interesses capitalistas e imperialistas e calar quem denuncia, quem informa, quem esclarece e atua nos alicerces dos direitos humanos.


Portanto, além do apagamento digital, as big techs dispõem do poder de capturar dados para entregar ao mercado capitalista/imperialista um produto direcionado para mudar os rumos de uma eleição, de um plebiscito, como foi o Brexit, em junho de 2016.


Mais do que isso, as big techs podem impulsionar e entregar para mais usuários a interpretação mais conveniente de fatos históricos, interpretações de versões, contextos e opiniões que mais atendam aos interesses de seus clientes/empresas, como ocorreu com o entendimento do próprio Brexit. Uma busca no Google explica o Brexit como “uma combinação de insatisfações políticas e econômicas, sendo os principais motivos o desejo de restaurar a total soberania nacional, o controle sobre as políticas de imigração e o desejo de evitar a submissão a regulações e orçamentos da União Europeia”, quando a compreensão do que foi o Brexit demanda conhecimento histórico, econômico e político da União Europeia.


A interpretação dos fatos históricos se tornou frequente na Internet e nas redes sociais com a ascensão das fake news. Os poderes das big techs até aqui descritos interferem na autonomia de mulheres, crianças, negros, idosos, animais, meio ambiente, grupos racializados, comunidades de gêneros, em seus direitos, em suas conquistas e reivindicações.


Referências

BRUNO, Fernanda Glória; BENTES, Anna Carolina Franco; FALTAY, Paulo. Economia psíquica dos algoritmos e laboratório de plataforma: mercado, ciência e modulação do comportamento. Revista Famecos, Porto Alegre, v.26, nº 3. set-dez.2019.

CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988. Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 27 jul.2025.

CRAWFORD, Kate. Atlas da IA. Edições Sesc São Paulo, 2025.

LIPPOLD, Walter; FAUSTINO, Deivison. Colonialismo digital, racismo e a acumulação primitiva de dados. Germinal, Salvador; v.14, nº2, p. 56-78. ago.2022.



Cibele Buoro é jornalista com passagens por diversos veículos de comunicação de São

Paulo, coordenadora do Curso de Comunicação da Unip e bacharel em Direito.


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