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Calhau

Foto do escritor: URRO
URRO
4 de out.
4 min de leitura

Atualizado: há 2 dias

Entrevista coletiva

Por Roberto Cardinalli

 

A imprensa separa o joio do trigo. E publica o joio. Adlai Stevenson

 

O tempo deixa marcas e a memória falha. Com frequência jogamos o passado para debaixo do tapete. E fatos ficam apenas na conta da história. Não são raras as vezes que os acontecimentos são recontados até mudarem completamente as versões. Águas das chuvas lavam o passado e levam o pó da sordidez para o fundo do poço. Como repórter fui testemunha de um dos períodos mais triste e dolorido da humanidade e vale pena ver o que pode acontecer de novo. Para que ninguém esqueça: em 2021 eu estava lá.  


Charge de Gilmar Fraga: Fantasia


Alvoroço.


Repórter Um. Quando o senhor chegou ao Brasil?


Coroya Wyrus. Queria chegar antes do Carnaval, mas tivemos que prolongar nossa estada na Europa, principalmente na Itália e na Espanha. Fizemos ótimos contatos por lá. A Europa respira nosso produto. Tivemos ainda uma audiência, regada com muito chá, com o príncipe Charles, em Londres, e depois seguimos para os Estados Unidos. Só conseguimos chegar ao final de fevereiro, uma pena.

 

Repórter Dois. O que está achando do Brasil?


Coroya Wyrus. Quentinho aqui, né. Tô gostando bastante. Povo cordial e efusivo; gosta de uma festiinhaaaaa, e de uns beijinhos e abraços. Um mercado muito promissor.

 

Repórter Três. Quais são os planos por aqui?


Coroya Wyrus. A meta é ousada. Queremos propagar e capturar milhões de pessoas só este ano. Estamos preparados para isso. Somos bem agressivos.

 

Repórter Quatro. Mas para isso, o senhor precisa estar articulado com as esferas governamentais. Houve algum contato nesse sentido?


Coroya Wyrus. Quando estive no início de março nos Estados Unidos, jantei com o presidente do seu país e mais toda a sua comitiva. Ele foi muito receptivo à nossa proposta. Ficou encantado e quis conversar de perto para ter mais detalhes do nosso projeto. Uma pessoa eloquente. Falador, ele me garantiu que fará para tudo que for possível para que a nossa marca, a Covid Dezenove seja um sucesso também por aqui.

 

Repórter Cinco. Conte um pouco sobre a Covid Dezenove. Como vocês cresceram em tão pouco tempo?


Coroya Wyrus. Tem razão minha jovem. Hoje estamos no Top Five entre todas as marcas do mundo. Nas redes sociais, nos grupos de whatszap, na mídia, na televisão e nos jornais. Só se fala disso. Chénggōng de!!! Nem aquele tal Zuquebergui conseguiu atingir algo assim. Aliás, podem colocar aí: tô querendo falar diretamente com ele para expandir nossos negócios pelo Feicibuque.

 

Burburinho.


Reportaida. O que ele disse? Xen não sei do quê? O que será isso? Não sei? Deixa pra lá. Como falo isso na tevê? No final da entrevista a gente combina algo e todo mundo escreve igual. Combinado? Tá. Vai dar merda.

 

Repórter Seis. Como vocês apareceram assim do nada?


Coroya Wyrus. Desculpe, mas não concordo com seu questionamento. Estamos há mais de vinte anos no mercado. Somos um produto jovem deste século. Começamos com um projeto experimental, chamado SARS, entre dois mil e um e dois mil e dois. Pensamos que íamos decolar, mas faltaram pulmões. Depois lançamos o MERS. Teve muito sucesso no Oriente Médio, mas caiu em descrédito por conta dos conflitos respiratórios no Golfo. Ainda tentamos o H1N1 e há cinco anos mais ou menos, lançamos outra versão, mas que não teve tanta adesão como esse novo modelo, inspirado e nos mesmos moldes da Influenza, que no ocidente eles chamam de gripe espanhola.

 

Onomatopeia (atchim) – certa balburdia no recinto (fechado).

 

Coroya Wyrus. Calma senhoras e senhores. Antes de mais nada queria esclarecer: existem dezenas de imitação barata do nosso produto. São produtos fakes e de baixa qualidade. (Pede ajuda para o assessor: como chama o presidente desse país mesmo? Bozonário, responde o assessor). Isso: o presidente Xair Bozonário me garantiu que tem muita gripezinha e resfriadinho por aqui, e que não teremos dificuldades com a concorrência. Então fiquem tranquilos; esse espirro é do Paraguai.

 

Onatopemia (ahhhh). Todos

 

Coroya Wyrus. Vamos continuar a entrevista.

 

Repórter Sete. Fale então para os internautas do meu blog, quais são os pontos que vocês diferem da concorrência?


Coroya Wyrus. Existem vários pontos. Primeiro, queremos atingir todas as faixas etárias, mas nosso foco é o ancião. Eles estão muito conectados com a nossa transmissão de mensagem. Ainda quero destacar aqui que temos o selo e o certificado do InMorto, um Instituto cem por cento eficaz. Não tem falha. Os cemitérios estão surfando na nossa onda e aumentando verticalmente seus atendimentos.

 

Burburinho.


Repórter Cinco. É verdade, confirma a Repórter Cinco, especializada em cobertura funerária e editora da seção “Obituário” do jornal A Folha da Madrugada.

 

Repórter 1. Tem igreja marcando Missa de Sétimo Dia, para daqui a quinze dias. E só por vídeo conferência.

 

Assessor do Coroya Wyrus. Última Pergunta.

 

Assessor aponta para a Repórter Cinco, quase a cumprimentando de muito perto.

 

Repórter Dois. O senhor sabe que o Brasil é um país de dimensões continentais. Qual a estratégia para atingir toda essa população?


Coroya Wyrus. Espalhem! Espalhem! Espalhem!



Roberto Cardinalli é jornalista, escritor, cronista e baixista nas horas vagas; autor do livro Delírios do Isolamento

 

 


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