Calhau
- URRO

- 22 de abr.
- 3 min de leitura
Uma cama vazia só prá mim
Por Roberto Cardinalli
A morte, surda, caminha ao meu lado. E eu não sei em que esquina ela vai me beijar.
Raul Seixas
Você pode me responder, por favor. Por que está feliz por eu ir embora? Sei que não fala comigo há dias, mas sinto seu vibrante silêncio escondido em sua saliva. Você fez a mesma coisa com o Tércio no começo do ano. Sabia que me ele contou tudo, uma semana antes de partir definitivamente. Éramos amigos de infância, sabia disso. Claro que não. Como pôde vir me procurar com o Tércio acamado. Vocês ainda não tinham terminado, né. Ele estava morto, não estava?
E não me olhe assim com essa cara. E essa camisola comprida. Não adianta correr para frente do espelho ajustar acima dos joelhos. Já falei; e pronto. Não vou pedir desculpa. Sei que está pensando. É sempre nessas horas que decidimos em emagrecer. Não fique zangada. Espelhos não mentem, nem mesmo quando você vira às costas para eles. Quer me impressionar agora! Estou com as malas prontas no outro cômodo, mas sei perfeitamente o que está fazendo aí no quarto. Não é o melhor momento para roer as unhas.
Será que ela não escuta o choro do filho do Tércio. Eu reparo nisso, sabia. Sinto pena, mas não vejo nada de errado nisso. Sinto a falta do escuro. Não sei o que tinha na cabeça, mas achava que a ilusão sempre era o melhor remédio. É claro que havia outros; como não pensei nisso antes. Odeio esses homens decentes com atitudes desonestas. Vá para o inferno com eles.

Pintura “O sonho”, de Frida Kahlo
Aquele médico de cabeça branca e camisa de manga curta que você trouxe aqui para me ver tinha cheiro de fumaça encardida. Quanto tempo vocês passaram na cozinha juntos enquanto eu ardia de febre e encharcava o lençol com o suor contaminado. Não preguei o olho a noite inteira. Aquele velho panaca. Ficou com medo e nem se aproximou de mim. Lembro muito bem que você disse que preferiria que eu estivesse dormindo.
Sei que não sou capaz, mas se não estivesse com as habilidades motoras deterioradas encurralaria o vetusto ali mesmo. Quem ele pensa que é? Se não sabem, vou contar uma coisa para vocês: sou manco. Levei um tiro na perna quando servia o Exército, durante uma patrulha de rotina na madrugada fria do quartel. Muita gente da corporação afirma que foi um malandro que estava passando por lá e atirou, mas tenho comigo que foi alguém da própria infantaria que teria disparado. Nunca saberei se foi acidental. Não sou um cara muito querido na praça.
Arrumei desordenadamente o que era meu naquela casa. Coube tudo numa pequena mala antiga de couro, a mesma com que desembarquei na plataforma sul da estação ferroviária central, vindo de Bauru em meados da década de setenta, num modesto vagão da Companhia Paulista. O relógio marcava em ponto dez horas e cinco minutos. Algum tempo depois pedi um café com rabo de galo no Botequim do Vasques.
Ela saiu do quarto com a camisola arrastando pelo chão. Ficou parada me olhando, encostada na porta da sala. O que ela quer. Não adianta ficar aí. Sei que preciso ir. Sem precisar ela acende a luz. Se ela me entendesse uma vez na vida. Eu não tinha forças para rir. Ela foi ao banheiro. Fechou a porta com a chave. O barulho da descarga rompeu os devaneios. Ela saiu e ficou me olhando com o ar de quem não quer nada. O filho do Tércio tinha parado de chorar. Não mexi uma palha para ir vê-lo no quarto, mas acho que cansou de esgoelar e pegou no sono. Eu queria que o filho do Tércio fosse para o Exército. Não sei por que, mas queria.
Uma vez falei para a mãe dele que iria deixar de presente para o garoto a minha pequena coleção de canetas tinteiros. São apenas dez, mas todas raras. Trabalhei desde jovem como consertador de canetas no centro da cidade. Era o restaurador mais importante da loja e o único que punha as mãos na Mont Blanc Meisterstück 149 revestida em ouro de um advogado conhecido no meio político. Ele até meu deu uma luxuosa Parker Sonnet Prata de presente. Nunca usei. Mas agora acho melhor dar a minha coleção a outra pessoa.
Levanto a mala do chão e olho novamente para ela. Só queria saber por que está tão feliz com minha partida. O que fiz de errado. Você está sendo injusta. Podia ser qualquer um aqui e não há mais nada a dizer. É inútil conversar. Droga, por que as pessoas só querem viver. E se eu desse a minha última tragada a agora. Não importa. Amanhã, finalmente, terei uma cama vazia só para mim.
Roberto Cardinalli é jornalista, escritor, cronista e baixista nas horas vagas; autor do livro Delírios do Isolamento



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