Calhau
- URRO

- 29 de nov. de 2025
- 4 min de leitura
Hã ram!
Por Roberto Cardinalli
Matamos o tempo; e o tempo nos enterra. Machado de Assis
Eu já estava com o surrado pijama cinza, uma desbotada camisa vermelha manchada por baixo, e aquele velho chinelo que acompanhava meus passos etílicos caseiros havia muitos anos. O copo de conhaque estava quase vazio. Aguardávamos o final do cozimento da sopa de legumes com carne.
Pouco antes do anoitecer desci até o mercadinho secos e molhados para comprar os ingredientes: trezentas gramas de carne em cubos pequenos (usei patinho), duas batatas médias, duas mandioquinhas, uma cenoura, uma abóbora e dois dentes de alho. E iria utilizar alguns condimentos que ainda tenho na prateleira: páprica doce, noz moscada, gengibre ralado, pimenta do reino e salsinha. “Não esqueça o coentro”, disse ela.
A mesa estava arrumada com os pratos fundos e com os talheres postos ao lado, a garrafa do extra virgem Herdade do Esporão 1267, o recipiente de Tabasco Brand e uma tigela de parmesão ralado na hora. “Quer uma torrada”?, perguntou ela. Não. Não era isso que ela queria perguntar. Demorei em responder. Percebi como sua angustia e aflição aumentava a cada segundo. Acabei aceitando.
Mas, logo em seguida, tomei a última dose de conhaque, afinal o álcool pode ser o pior inimigo do homem, mas a Bíblia diz para amarmos nosso inimigo. Frank Sinatra falava muito essa frase, principalmente nas noites em que cantava “All Or Nothing At All”, música composta por Arthur Altman e Jack Lawrence, que passou mais de cinco anos sumida da praça até ganhar a voz inconfundível de “Olhos Azuis”, como Frank era chamado pelos mais íntimos.
Na boca, degustei aquela mistura estranha e inusitada de conhaque com migalhas de torradas mordidas. Ahrg! Lembrei-me das frescas e odiosas bolachas champagne. Enfim, na pior das hipóteses a gente pode viver das lembranças.

Obra: The Yellow Dwarf, 1868, de John Gilbert
“Preciso te contar uma coisa”, disparou ela.
“Hã ram!”, balbuciei.
“Mas promete que não vai contar nada para ninguém”, sentenciou ela.
“Há ram”!, balbuciei.
“Você sabe que todo o dia vou caminhar pelo menos uma hora em volta da praça. Pois é. Hoje aconteceu algo do arco-da- velha. No meio da quarta ou quinta volta, não lembro direito, apareceu em anão barbudo na minha frente. Isso mesmo, um anão. Há quanto tempo você não vê um anão? E o pior é que não me lembro de ter passado por ele antes. Como um anão pode passar despercebido? Mas, então... O pobre-diabo me contou uma história bizarra”, foi revelando ela, sem parar, e com certa dose de ansiedade.
Hã ram!, balbuciei.
“Desculpe incomodar a senhora”, começou a relatar o liliputiano. “Um minutinho, por favor,”, suplicou. E sem consentimento, tagarelou. “Moça, meu nome é Alvís Atchim. Nasci no território Nórdico, da Finlândia, mas estou há dezenas de anos por aqui. Desculpe minha pronuncia. Mas isso não interessa e nem vem ao caso! O fato é que fui expulso essa semana do asilo em que estava morando.
A dona Branca, gestora da casa de repouso que age mais como uma rainha má, alegou que eu iria contaminar os demais moradores do asilo com a minha visão progressista da sociedade. Não aceitou nem meus argumentos de que tenho renite alérgica decorrente de anos e anos de consumo de amido de milho. Não teve jeito, me pôs no olho da rua. Sei que houve diversas reações lá dentro. Teve gente lá que ficou ‘zangado’, outro ‘feliz’, e até outro que nem ligou e foi tirar uma ‘soneca’”.
“Quando sai daquele albergue fedorento e caí na realidade, percebi que sou um eterno transgressor delinquente”, resmungou o pequeno. “A cada pensamento meu... Hoje descobrem tudo: o seu passado, o seu presente e até seu futuro. Será que é coisa dessa tal Inteligência que chamam de Artificial? Enfim, sou alvo constante de ofensas preconceituosas.
Tem pessoal que coleciona adjetivos e disparam violentamente como se ainda tivessem no século passado. Cansei de ser chamado de “tampinha’, “pigmeu”, “nanico de merda”. Os “raíz” vão além e carregam nas tintas verbais: “vai se lambuzar na porra da maçã da bruxa da sua mãe”. Outros partem para a agressão física. Cascudos na orelha. Olha esses calombos no pescoço! Pareço leproso; sabe que tem pessoas que atravessam a calçada ao me ver”.
“Depois de tudo isso”, argumentou...
“Acabou para um velho... Como eu. Estou condenado à morte; só queria saber o motivo. Será que vivo no mundo do Kafka ou nos contos dos Irmãos Grimm? Desisti da vida. Por isso, estou desde ontem tentando comprar um caixão. Meu périplo ‘ulissíano’ nas últimas vinte e quatro horas foi passar de funerária em funerária. Só que não tem mais nenhum féretro à venda; e se comprando agora, entrega só para trinta dias e por disque-entrega. Como pode?”
“Quando o anão ia concluir”, retomou ela... “Não sabia o que fazer. Ele até que falava bem. Parecia ser uma pessoa culta. Mas resolvi apertar o passo. Depois, comecei a correr sem parar. Não deu tempo de nem olhar para trás. Estou com um nó na garganta. Você acha que agi de forma correta? O que devo fazer? Será que sou uma dessas ‘raiz’?”
Corri para apagar o fogo. A sopa havia evaporado.
Roberto Cardinalli é jornalista, escritor, cronista e baixista nas horas vagas; autor do livro Delírios do Isolamento



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