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Veias Abertas

  • Foto do escritor: URRO
    URRO
  • 25 de abr.
  • 2 min de leitura

É preciso se deixar invadir pelas imagens de Godard

Por Bruno Zambelli


Um homem liga uma câmera. Ele encara sua lente como quem encara sua própria vida. Seus olhos estão levemente marejados, mas não vacilam: guardam a firmeza e a coragem daqueles que, como poucos, podem encarar a morte de frente e tourear o infinito. Na mão direta, um charuto. Ele o leva lentamente até a boca e, propositalmente, enfumaça todo o ambiente. A névoa sobe devagar, desenhando o tempo no ar. Silêncio. Em seu derradeiro ato, Godard encara a existência como sempre o fez: através da lente de uma câmera. Ele então levanta calmamente, suspira e caminha em direção a eternidade.


Jean-Luc Godard, cineasta franco-suíço, fez do cinema um campo de batalhas e de sua vida uma obra-prima repleta de genialidade, ousadia, polêmicas e combates. Insubmisso e inquieto, recusou a estética dominante, rompeu com a forma, levou a câmera para as mãos e para as ruas, deslocando o cinema do conforto para o risco. Enfrentou o imperialismo não apenas como tema, mas como linguagem e como um pêndulo louco, fez da coerência um exercício dialético, mantendo-se sim fiel às suas ideologias, mas permitindo-se transitar pela liberdade plena da criação artística. Godard viveu como poucos: pensou o mundo, o transformou incessantemente durante décadas, tensionou suas imagens e projetou em nossas retinas uma realidade tanto poética quanto possível. De bate pronto: Godard nos ensinou a sonhar.



Articulista de pena afiada, escrevia como filmava: pelejando. Na crítica, nos artigos, nos gestos fragmentados de pensamento, encontrou outra frente de batalha, não para simplesmente compreender ou explicar o cinema, mas sim demonstrar como filmes podem mudar o mundo e a vida das pessoas. À sua maneira, construiu uma espécie de “Vietnã da Cultura”: focos de resistência espalhados, impossíveis de pacificar, que se transfiguram em focos de expansão, atravessando oceanos, voando com o vento, fazendo a cabeça de muita gente e a revolução cultural em diferentes continentes.


Tudo o que construiu ao longo de décadas não se dispersa, não vira poeira, mas se condensa, vira trincheira, resistência. Sua obra não se dilui no tempo: insiste, retorna, reaparece em formas cada vez mais precisas, mais radicais, mais necessárias nesses tempos sombrios. Exemplo disso é o curta “Je Vous Salue Saravejo”, de 1993. Em pouco mais de dois minutos, diante de uma única imagem, Jean-Luc Godard faz aquilo sabe fazer melhor: tensiona o olhar, expõe a violência, recusa a passividade, exige a justiça a qualquer custo e de qualquer maneira.


Num mundo que volta a flertar com o autoritarismo e a beijar na boca velhos tiranos empoeirados, sua obra permanece não como memória, mas como necessidade. Não há conciliação possível: o cinema de Godard é uma ode à liberdade e uma recusa contínua à submissão artística.

Je Vous Salue Saravejo


 


Bruno Zambelli é escritor, diretor teatral e ator.

 

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