Veias Abertas
- URRO

- 19 de ago. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 23 de ago. de 2025
Xenofeminismo: Uma Política pela Alienação
Por Bruno Zambelli
Em 2015, um pequeno coletivo de seis mulheres espalhadas pela Europa e América do Norte lançou online um texto que se tornaria uma das declarações mais provocativas da última década: o Xenofeminist Manifesto: A Politics for Alienation. O grupo atende pelo nome de Laboria Cuboniks — um anagrama de Nicolas Bourbaki, coletivo de matemáticos franceses que, no século XX, assinava suas publicações de forma anônima e coletiva.
Essa escolha já trazia o espírito do projeto: dissolver a autoria individual, bagunçar o coreto e afrontar a realidade e a ordem estabelecidas. O manifesto, que surge em meio ao avanço da cultura digital, da biotecnologia e das discussões feministas interseccionais no espaço virtual, ao contrário de outros textos que olham para a tecnologia apenas como ameaça, aposta no hackeamento: tomar a técnica, reconfigurá-la e colocá-la a serviço da emancipação.
O Xenofeminismo parte de uma ideia simples e radical: “Se a natureza é injusta, mudemos a natureza.” A frase, que se tornou o slogan do movimento, sintetiza seu espírito antinaturalista. Em vez de aceitar o “natural” como justificativa para desigualdades de gênero, sexualidade, raça ou capacidade, o manifesto propõe manipular, alterar e reinventar o que chamamos de natureza, seja ela biológica, social ou tecnológica.
Escrito em linguagem densa e poética, dividido em seis seções curtas, o manifesto mistura filosofia e cyberpunk. Sua circulação digital transformou-o em referência para debates sobre feminismo, tecnologia e política, inspirando artistas, coletivos e acadêmicos.

Denso e poética, o manifesto mistura filosofia e cyberpunk. Ilustração Josan Gonçales
Xenofeminismo: Uma Política pela Alienação
Laboria Cuboniks (2015)
Tradução: Inaê Diana Lieksa. Revisão: J.-P. Caron
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“O nosso é um mundo em vertigem. É um mundo invadido por mediações tecnológicas, que entrelaçam nossas vidas diárias de maneira abstrata, virtual e complexa. XF constrói um feminismo adaptado a essas realidades: um feminismo de inteligência, escala e visão sem precedentes; um futuro no qual a realização da justiça de gênero e da emancipação feminista contribua a uma política universalista montada a partir das necessidades de cada pessoa, independentemente de sua raça, habilidade, posição econômica ou posição geográfica. Não mais repetição sem futuro na espiral do capitalismo, não mais submissão à monotonia do trabalho, seja produtivo ou reprodutivo, não mais coisificação do natural mascarado como crítica. Nosso futuro requer uma despetrificação. XF não é uma oferta de revolução, senão uma aposta sobre o longo termo da história, que exige imaginação, destreza e persistência.”
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“XF aproveita a alienação como estímulo para gerar novos mundos. Todxs estamos alienadxs – mas houve algum momento em que não estivemos? É através de, e não apesar de, nossa condição alienada que podemos nos libertar da sujeira da imediatez. A liberdade não é algo dado e certamente não nos é dada por ‘natureza’. A construção da liberdade não envolve menos alienação, senão mais; a alienação é o trabalho da construção da liberdade. Não deveríamos admitir nada como fixo, permanente ou ‘dado’ – nem as condições materiais nem as formas sociais. XF muda, navega e esquadrinha cada horizonte. Quem quer que se tenha considerado ‘não-natural’ sob as normas biológicas reinantes, quem quer que tenha experimentado injustiças em nome da ordem natural, compreenderá que a glorificação do ‘natural’ não tem nada pra nos oferecer – aos/às queer e trans entre nós, às pessoas com diversidade funcional, assim como aqueles que sofreram discriminação devido à gravidez ou às tarefas ligadas à criação dos filhos. XF é veementemente antinaturalista. O naturalismo essencialista fede a teologia – quanto mais rápido o exorcizarmos, melhor.”
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“Por que há tão pouco esforço organizado e explícito para redirecionar as tecnologias para fins políticos progressivos de gênero? XF busca fazer um uso estratégico das tecnologias existentes para re-desenhar o mundo. Essas ferramentas implicam sérios riscos, são propensas ao desequilíbrio, ao abuso e à exploração dxs mais fracxs. Em vez de fingir que esses riscos não existem, XF advoga pela necessidade de unir interfaces tecnopolíticas que respondam a esses riscos. A tecnologia não é inerentemente progressista. Seus usos estão fundidos com a cultura num círculo de retroalimentação positiva que faz com que o sequenciamento linear, a predição e a precaução absolutas sejam impossíveis. A inovação tecnocientífica deve se enlaçar com um pensamento teórico e político coletivo no qual mulheres, queers, e dissidentes de gênero tenham um papel sem paralelo.”
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“O potencial emancipatório real da tecnologia segue sem se cumprir. Alimentado pelo mercado, seu rápido crescimento é cancelado por um entorpecimento e sua elegante inovação se submete ao comprador, cujo mundo estagnado decora. Acima do ruído de materiais inúteis e residuais convertidos em mercadoria que se acumulam, a tarefa principal consiste em desenhar tecnologias para combater o acesso desigual às ferramentas reprodutivas e farmacológicas, o cataclismo ambiental, a instabilidade econômica, ou as perigosas formas de trabalho não- ou sub-remunerado. A desigualdade de gênero ainda caracteriza os campos nos quais nossas tecnologias são concebidas, construídas e legisladas, ao mesmo tempo em que as mulheres que trabalham na eletrônica (para nomear apenas uma indústria) levam a cabo os trabalhos mais monótonos, debilitantes e mal pagos. Tal injustiça exige uma reforma estrutural, maquínica e ideológica.”
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“O Xenofeminismo é um racionalismo. Defender que a razão ou a racionalidade é ‘por natureza’ uma empresa patriarcal é admitir a derrota. É verdade que a canônica ‘história do pensamento’ está dominada por homens, e são mãos masculinas as que vemos reduzindo a velocidade das instituições científicas e tecnológicas existentes. Mas isto é precisamente o porquê do feminismo dever ser um racionalismo, por esse miserável desequilíbrio, e não apesar dele. Não há racionalidade ‘feminina’, como tampouco há a ‘masculina’. A ciência não é uma expressão de gênero, mas a sua suspensão. Se hoje encontra-se dominada por egos masculinos, então está em contradição consigo, e esta contradição pode ser utilizada como uma vantagem. A razão, como a informação, quer ser livre e o patriarcado não pode lhe dar sua liberdade. O racionalismo deve, em si, ser um feminismo. XF marca o ponto onde essas afirmações se interseccionam numa dependência bidirecional. Nomeia a razão como motor de emancipação feminista, e declara o direito de todxs de falar como ninguém em particular.”
Leia o Manifesto Original
Bruno Zambelli é escritor, diretor teatral e ator.



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