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Veias Abertas

  • Foto do escritor: URRO
    URRO
  • 9 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura

A luz que insiste em atravessar a noite

Por Bruno Zambeli


Há nomes que, quando pronunciados, alumeiam todo o espaço por onde ecoam. Vladimir Herzog é um desses. Seu legado, feito de palavra, de imagem e de coragem, atravessa décadas como um clarão persistente, recusando-se a ser apagado. O Acervo Vladimir Herzog nasce dessa recusa: um gesto de memória, resistência, ponte entre o que fomos, o que somos e o que ainda precisamos defender, por mais absurdo que nos pareça.


Mais do que documentos, o projeto torna acessível aquilo que não cabe em pastas ou prateleiras: a textura humana de um jornalista que acreditava na verdade como ofício e na liberdade como horizonte. Ali estão suas fotos, seus escritos, sua vida em fragmentos que se unem para formar um retrato amplo de toda uma geração que ousou enfrentar o silêncio imposto pela ditadura.



Num país onde a história foi tantas vezes riscada, distorcida e violentada, o acervo ergue-se como arquivo e como altar. Ele devolve à sociedade o que a violência tentou roubar: a narrativa íntegra de um tempo em que pensar podia custar a vida. Um tempo que, apesar de passado, ainda lança sombras sobre nós.


Nos últimos anos, com a ascensão do bolsonarismo, assistimos a um fenômeno inquietante: as crueldades da ditadura voltaram a ser exaltadas, como se a tortura pudesse ser reescrita como bravura. Houve quem venerasse Brilhante Ustra, ostentando seu livro, quem tentasse transformar em mito aquilo que deveria ser lembrado apenas como ferida e crueldade. A história, mais uma vez, correu o risco de ser sequestrada.

E é justamente aí que o Acervo Vladimir Herzog se torna vital. Ele desafia o apagamento. Ele desmonta as versões convenientes, protege a verdade não como um monumento estático, mas como fogo vivo. Ao resgatar a memória de Herzog, resgatamos também o sentido da democracia, construção frágil, que por aqui só se sustenta quando lembramos do preço pago por ela e pelos seus defensores.


Visitar o acervo é entrar em contato com a nossa própria luta não apenas enquanto nação, mas como seres humanos. É ouvir, por entre os documentos, um chamado silencioso dizendo que jamais podemos permitir que a liberdade se torne mercadoria, ou que o autoritarismo volte a vestir a máscara da ordem. Em tempos obscuros, o acervo é farol.


A memória de Vladimir Herzog não é apenas memória, mas também é vigilância, alerta, é promessa. Enquanto sua história for preservada e acessível, a democracia brasileira continuará encontrando, mesmo na noite mais longa, o caminho de volta para a luz.


O Acervo:

 

  

Bruno Zambelli é escritor, diretor teatral e ator.

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