Traços Talantes

O pastor da idiotia higiênica
Por Cunhambebão Neto
No meu incansável esforço em escarafunchar as ruínas da memória campineira, deparei-me com um vulto tão insólito quanto terrivelmente instrutivo. Se a cidade prefere guardar no mármore os seus poetas, arquitetos e heróis, esquece-se com frequência dos charlatões que, revestidos de jaleco, unção patriótica e verniz acadêmico, conduziram a elite local diretamente para o abismo da estupidez voluntária. Refiro-me ao doutor Belisário de Siqueira Cintra (1881–1938).
Médico por formação e alienista por conveniência, Belisário iniciou sua carreira como modesto tabelião de crânios nos corredores do Asilo de Alienados de Campinas. No entanto, percebendo que a sanidade rende pouco prestígio perto do pânico social, fundou em 1923 a infame Liga da Higiene Cívica e Moral de Campinas. O movimento, que começou como um clube de debates para damas caridosas e comerciantes receosos na antiga Confeitaria Bressane, no Centro, rapidamente tomou os jornais e os coretos da cidade.
Sua tese central era tão simplória quanto perigosa: a inteligência individual, o estudo crítico e a livre dúvida seriam “sintomas de degeneração nervosa e fraqueza de caráter”. Para o doutor, a salvação de Campinas não dependia de vacinas ou saneamento básico, mas da conversão do povo em um gado obediente e uniformizado.
Em pouco tempo, o doutor Belisário angariou aliados de peso na sociedade campineira. Entre eles, o industrial Américo “Dentes-de-Aço” Fontes, proprietário de uma fundição na Vila Industrial que financiava os panfletos do movimento e exigia que seus operários marchassem aos domingos trajando camisas Amarelo-Canário. A influente figura de Dona Zulmira Junqueira, matrona do Cambuí que organizava o Bazar da Casta Obediência, onde se vendiam amuletos de lata bentos contra o “vírus do pensamento livre”.
A ascensão da Liga foi rápida e espetacular. Belisário promovia as chamadas “Caravanas da Ignorância”, que percorriam do Largo do Rosário à Praça Bento Quirino. Diante de multidões em transe, o médico bradava do topo de caixotes de madeira, inflamando a turba contra professores, jornalistas e médicos sanitaristas: “O homem que pensa hesita, o homem que obedece marchará até o fim! Não precisamos de doutores que nos expliquem o invisível, precisamos de cidadãos de bem que saibam mugir em uníssono!”
O auge do delírio coletivo deu-se em meados de 1928, durante um surto febril que assolou a região do Botafogo e da Estação da Mogiana. Enquanto a comunidade médica recomendava o isolamento e o tratamento de águas, o doutor Belisário declarou que a epidemia era “uma invenção dos fracos” e convocou a Grande Marcha da Imunidade Moral.
Mais de três mil seguidores marcharam pela Avenida Andrade Neves com bandeiras do município, orando contra os micróbios e entoando slogans ufanistas. A procissão culminou no “Grande Banho de Pureza”, no qual Belisário fez a multidão se banhar coletivamente nas águas poluídas do Córrego do Anhumas para “provar a superioridade da fé cívica sobre a ciência dos covardes”.
O resultado, como registra o diário confidencial de um antigo legista do Cemitério da Saudade, foi uma tragédia sanitária de proporções grotescas, rapidamente abafada pelos jornais financiados por Américo Fontes.
Desmoralizado entre os pares, mas venerado até o fim por uma seita de fanáticos, Belisário recolheu-se a uma chácara nos arredores do Chapadão. Ali passou os últimos anos de vida medindo crânios de ovelhas, na vã tentativa de provar matematicamente a superioridade moral dos animais que se deixam degolar sem emitir ruído.

De sua vasta e estúpida panfletagem, restou um exemplar de Manifesto, publicado em 1926 e reproduzido abaixo em sua integralidade:
Povo de Campinas, abri os olhos antes que seja tarde!
Dizem-nos os pretensos sábios e doutores que é preciso pensar, julgar, duvidar. Que veneno sutil! A dúvida é uma invenção dos fracos, o verme que corrói as fundações da família e da pátria.
Eu vos proponho a cura definitiva para todos os males: a gloriosa renúncia do juízo!
Olhai para as ovelhas que pastam nas colinas de Sousas: não questionam o pastor, não criticam o cajado, não debatem o rumo e não leem livros pretensiosos.
Caminham unidas, quentes, protegidas no abençoado abraço da própria massa. Que vantagem há na solidão de pensar diferente? Nenhuma! Apenas a tuberculose do espírito e o frio da exclusão.
Abaixo os livros que complicam o que é simples! Abaixo as ciências que desafiam o nosso bom senso de praça pública! Se a realidade contradiz o que sentimos no peito, que se dane a realidade!
Exijo o direito de ser estúpido em paz! Exijo que a ignorância seja declarada patrimônio cívico da nossa terra!
Entregai vossas mentes ao ritmo da marcha. Fechai os olhos para a razão, cobri os ouvidos para a lógica e abri os braços para a obediência cega ao nosso pavilhão. Não precisamos de vacinas, nem de verdades complexas: a nossa fé no pastor é o único remédio!
Pois declaro, do alto do Largo do Rosário: não há espetáculo mais sublime sobre a terra do que dez mil cidadãos de bem marchando juntos, de cabeça erguida, para defender com unhas e dentes a mesma e gloriosa tolice.
Cunhambebão Neto é o pseudônimo de um atento observador das artes reais e trivais da cidade.



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