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Traços Talantes

  • Foto do escritor: URRO
    URRO
  • 10 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

O arquiteto das vozes perdidas

Por Cunhambebão Neto


No meu incansável esforço em escarafunchar as ruínas da memória campineira, deparei-me com um vulto tão insólito quanto fascinante. Entre os anos de 1890 e 1935, quando Campinas oscilava entre a opulência das últimas fortunas cafeeiras e o desamparo dos surtos epidêmicos, viveu por aqui o arquiteto, poeta e boêmio Álvaro Ferrante do Amaral.


Seus traços, como os de quase todos os que não pactuaram com a cafonice da elite, foram apagados, rasurados, desconsiderados. Mas Ferrante, sempre desobediente à lógica dos dias, deixou o rastro daquilo que chamava de “a ópera secreta da cidade”. Segundo ele, cada esquina de Campinas carregava um motivo musical, e cada fachada, se observada com os olhos certos, tremia no compasso de uma ária contida.


Viveu parte de sua juventude nos arredores da antiga Estação da Mogiana, onde, diz-se, aguardava trens não para viajar, mas para escutar o eco metálico das locomotivas e convertê-lo em desenhos. E à noite, sempre à noite, era visto cambaleando pela Barão de Jaguara, discutindo acústica com literatos de aluguel e músicos amadores.


Ferrante afirmava ter conhecido, ainda criança, “o sopro divino que o maestro Carlos Gomes deixou no vento”. Jurava que Carlos Gomes, ao visitá-lo em sonho na madrugada do Largo do Pará, sussurrara-lhe um mandamento: “Arquitetura é ópera petrificada. Faz Campinas cantar.”


E Álvaro, fiel devoto da febre e do delírio, passou a vida tentando obedecer ao Maestro e Mestre.


A ele se atribuem obras que a cidade perdeu, demoliu ou simplesmente fingiu não compreender. Entre elas, o Pavilhão Orfeônico da Vila Industrial, pequeno auditório de tijolos cuja acústica amplificava murmúrios mínimos, como se as paredes tivessem pulmões próprios.


A Casa das Sete Ressonâncias, no Cambuí teria sido sua obra mais íntima: sete cômodos circulares, cada qual com uma vibração sonora diferente, onde a soprano Lucinda Bivar, seu grande amor, costumava ensaiar trechos de O Guarani enquanto Ferrante bebia, chorava e desenhava novas ruínas.

E, como todo artista que ousou ser maior que a própria cidade, morreu discretamente, sem lápide notável ou lembrança devida. Cansado, tuberculoso, tomado por um silêncio que ele mesmo provocou ao tentar transformar prédios em cantos, o arquiteto sucumbiu ao desespero, passando seus últimos meses sem juízo, jogado num manicômio regendo o infinito.


Mulher Vestida de Preto na Ópera, da pintora americana Mary Cassatt


De seu vasto caderno de “notas do hospício”, como o batizou, restou apenas um texto que ele chamou de “Árias de Pedra”, reproduzido abaixo:


As paredes, minhas irmãs fatigadas, respiram mais do que nós.

Há nelas uma garganta mineral que o dia insiste em calar.

E ainda assim, quando a madrugada escorre pelas sarjetas da Conceição,

elas sussurram.

Sussurram como velhos violinos que aprenderam a suportar o tempo.

Oh, Campinas das vozes enterradas!

Cidade onde os ecos procuram dono, onde a sinfonia se desmancha no pó das ferragens.

Como ousas viver sem cantar?

Os homens que te constroem não entendem.

Empilham tijolos como quem empilha silêncios.

Fecham portas como quem fecha a boca das almas.

E erguem telhados pálidos, sem jamais perguntar

se o vento deseja atravessar o madeirame em forma de acorde.

Eu quero, porém, que tudo soe.

Quero janelas que tremam em dó maior quando o sol bate torto.

Quero escadarias que gritem como contraltos febris

subindo pelas pernas da noite.

Quero paredes que devolvam ao transeunte distraído

a memória sonora do próprio coração.

E se a cidade me chama de louco,

abraço, feliz, a loucura.

Pois a razão construiu prédios demais.

A música, nenhum.

Oh, Campinas, abre teu peito de barro e cal!

Deixa que a noite te ensine a cantar.

Deixa que meu desespero seja teu maestro.

Se nada mais restar,

que reste ao menos o eco.

O nosso eco.


 

Cunhambebão Neto é o pseudônimo de um atento observador das artes reais e trivais da cidade.

 

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