Traços Talantes
- URRO

- 18 de ago. de 2025
- 2 min de leitura
Quando o amanhecer estraçalha sonhos
Por Cunhambebão Neto
Firme no intuito de tornar pública a pesquisa infinda de promover a justiça poética aos ilustres desconhecidos escritores dessas Campinas, esbarrei em uma grata surpresa. Pode parecer mentira, mas na segunda metade do século XIX e início do século XX Campinas produziu mais do que café. Alguns Jovens poetas, impactados com a chegadas das ferrovias, Companhia Paulista e Mogiana, e com a modernização urbana proporcionada pela riqueza gerada pelo “ouro verde”, resolvem fazer da madrugada da cidade das andorinhas a sua nova morada.
Ébrios, jovens inconsequentes, trabalhadores das fazendas, o movimento abraça todos os tipos de excluídos e, na base da pena, da revolta e do gole, reafirma a necessidade de ruptura com uma lógica de vida que não contempla a todos. A solução? O delírio, a madrugada, a poesia enquanto vida plena. O movimento ficou conhecido como Ímpeto e Tempestade, e reproduzimos abaixo o seu primeiro manifesto.

Le Désespéré (O Desespero), pintura a óleo sobre tela de Gustave Courbet
A Sonata dos Desesperados
Vastas madrugadas febris, rainhas dos desvarios mais angustiantes, enigma das vidas depositadas na poupança e consumidas com parcimônia e tédio. Como te Amo. Intensa ferrugem do céu ocre que corrói o nosso espírito desassossegado. Que por entre goles e dores, paixões e fumaça, nos decapita lindamente, fazendo da razão não mais que uma lembrança dolorosa, um vício esquecido no claro do dia. Como te quero.
Meu corpo, minhas vísceras, meus pensamentos; são todos do avesso.
Oh, paralelepípedos embebidos de vômito e sangue! Oh, estrelas de éter a borbulhar o nosso sangue! Como vos preciso.
As inóspitas esquinas por onde escorremos, legando ao frio asfalto o pouco da nossa carne, guardam, de certo, a medida da nossa doença. Os fantasmas contorcidos pelos excessos, o tempo corrompido pela beleza, e os nossos olhos, perdidos no horizonte embriagado de nossa existência líquida e vadia, transparecem o tanto do nosso desespero.
Nossos sonhos, nosso futuro e nossa paz, foram leiloados por uma Laranja Chinesa.
Oh, nuvem negra de ópio que nos transposta aos céus! Oh, clarividência que brota do da emancipação da consciência! De vos somos devotos.
Uma ode de cusparadas e injúrias em direção ao dia. Um sorriso gélido e disforme que apague o sol. Não há saída para o dia, é preciso, ainda que tardiamente, decretar o nosso eterno anoitecer pela vida.
Oh!
Cunhambebão Neto é o pseudônimo de um atento observador das artes reais e trivais da cidade.



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