Tensão sobre o Tom

Atualizado: há 1 dia
Quando o indizível se fez ‘Dito’, vulgo ‘Nego Dito’
Por Mauricio Simionato Fotos Stela Handa
Arrigo Barnabé, com seu casaco sobretudo com um tubarão costurado nas costas, com aquele piano que não pede licença, conduz a Isca de Polícia - essa banda que nasceu para ser coice, para ser faca, para ser o funk torto de São Paulo.
O espetáculo nasceu simples, do desejo de Arrigo de mergulhar no repertório do compadre, com quem divide a estrada desde Londrina, em 1972. Virou "Tristes Trópicos" no Sesc Consolação, virou "Arrigo Visita Itamar" no Sesc Pompeia e no Blue Note, onde tocou na noite fria do dia 4 de setembro.

No palco do Blue Note, de frente para a Avenida Paulista, eles se reuniram para tocar Itamar Assumpção, o “Nego Dito”. Traça-se um fio condutor que Arrigo chamou de "elo mediúnico" movido pela cozinha original da Isca de Polícia _ Paulo Lepetit (no baixo), Marco da Costa (na bateria) e Jean Trad (na guitarra) - aquela mesma formação que por décadas sustentou o Nego Dito
As canções de Itamar, que sempre foram rua, suor e delírio, também vestem o smoking rasgado da vanguarda, que sempre foi. O dodecafônico encontra o malandro mais uma vez. Compõem a mistura que formatou a Lira Paulistana.
A voz de Arrigo declama onde Itamar sussurraria. Onde Itamar sangrava, Arrigo teatraliza. E a Isca entende tudo, porque a Isca sempre soube: baixo que caminha como quem desvia da polícia, guitarra que corta como gilete, bateria que não marca tempo, marca território.
E o que se ouve não é cover. É transmutação.
Quando Arrigo canta "Nego Dito", "Dor Elegante" e "Fico Louco", ele não imita. Ele declama, ele teatraliza com aquele canto falado, atonal, que sempre foi seu. A Isca, por sua vez, não acompanha. Ela murmura notas rasgadas.

É um show de uma bela assombração, que ressuscita na outrora Paulicéia Desvairada _ em pleno inverno de 2026. Itamar não está mais entre nós, mas está em tudo, por ali. Em cada verso torto, em cada refrão que não quer ser refrão, em cada silêncio que o público presente logo reconhece.
No meio, como quem abre janelas numa casa fechada, entram os outros Itamares que viviam dentro de Itamar: Nelson Cavaquinho com "Quando Eu Me Chamar Saudade", Ataulfo Alves com "Na Cadência do Samba" e "Errei, Erramos", Drummond infiltrado em "Dor Elegante" - "o amor não nos explica e nada basta".
Tudo sem nostalgia. Com funk, blues, samba e invenção, como Itamar sempre quis.
No fim, não foi apenas um tributo. Foi reencontro além-túmulo. Dois Itamares - o que se foi e que aqui está, nas brechas da noite - se encontrando no mesmo corpo de Arrigo, que rege, grita, provoca, ri e, nos lembra que a música paulista ainda não aprendeu a pedir desculpas.
Maurício Simionato é poeta e jornalista. Como poeta, lançou os livros Impermanência (2012) — selecionado pela Secretaria de Cultura de Campinas —, Sobre Auroras e Crepúsculos (Multifoco, 2017) — lançado na Bienal do Livro do Rio/2017 —, O AradO de OdarA (Uma distopia tropical) (Patuá, 2021) e as Vísceras das coisas (Patuá, 2025). Mestre em Divulgação Científica e Cultural pela Unicamp, realizou pesquisa sobre “cacos poéticos urbanos”. Com o jornalista tem passagens por diversos veículos de imprensa nacionais e foi correspondente na Amazônia por três anos. O autor também tem poemas publicados em diversas revistas especializadas em literatura, assim como em mais de 15 antologias poéticas. Foi três vezes finalista do Prêmio Off Flip (2020, 2021 e 2023) e, ainda, finalista do Prêmio Guarulhos de Literatura (2019).



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