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Tensão sobre o Tom

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    URRO
  • 15 de abr.
  • 6 min de leitura

Atualizado: 23 de abr.

A alucinação da alucinação da alucinação de Belchior: 50 anos depois

Por Maurício Simionato


O álbum "Alucinação" (1976), de Belchior, completa 50 anos em 2026, reconhecido como obra-prima da música popular brasileira, o que reforça o aspecto profético e contestador de suas composições em uma época em que termo "alucinação" tornou-se comum para descrever quando modelos de IA generativa (como ChatGPT) criam informações falsas, mas com aparência convincente. 


Até a alucinação de hoje é fake. É moldada cuidadosamente por máquinas que encaixam, empilham algoritmos e constroem sentidos. A alucinação de hoje é fragmentada. Não é somente um estado de transcendência que visa a expansão da consciência, mas para enganar e ludibriar pessoas. Hoje, ela não amortece a realidade para nos dar um alento diante da vida sem sentido. Pelo contrário, ela pode nos jogar em uma realidade aprisionadora de sentidos ao nos realocar silenciosamente entre as grades de uma prisão virtual, supostamente libertadora.


Por definição, alucinação é a percepção falsa de objetos ou eventos, envolvendo os sentidos (visão, audição, olfato, tato, paladar), ocorrendo sem um objeto externo real. Você não precisa aceitar que seus sentidos sejam falseados. O real e o ilusório são possibilidades do sujeito perceptivo.

A alucinação da pós-realidade carcome os sentidos em um mundo distinto daquele vislumbrado por Belchior há cinco décadas. Ao alavancar sentidos distorcidos da realidade como a dissonância cognitiva, a pós-verdade e a mentira cultuada como status de ódio dissimulado, as sensações se derretem nas horas gastas em telas de celular e no falso moralismo, que reinam entre likes, deslikes e visualizações instantâneas. A alucinação nas primeiras três décadas do século XXI é careta. Não tira você do seu lugar, mas te deixa lá, na defesa o tempo todo.


Para o filósofo Michel Foucault [1926-1984], especialmente em sua obra História da Loucura na Idade Clássica, a alucinação não é entendida apenas como um fenômeno médico ou biológico de percepção falsa, mas sim como um discurso e um conjunto de convicções que se inserem na dimensão da "não-razão". Portanto, ele aponta em como a alucinação é usada pelos saberes de poder para limitar e definir a loucura, transformando-a em uma "doença" ao invés de uma "desrazão".


Belchior tinha razão. A ideia de alucinação gera medo nos poderosos por seu caráter autêntico e ameaçador do senso comum. Como pode ser experimentado na música “Como o diabo gosta”: (...) E a única forma que pode ser norma / é nenhuma regra ter / é nunca fazer nada que o mestre mandar / Sempre desobedecer / Nunca reverenciar (...).


O tema sempre chamou a atenção de psicanalistas e filósofos. Jacques Lacan aborda o problema das alucinações desde o início de sua obra, em 1933, explorando as relações entre alucinação, psicose e a estrutura do desejo. Já Jean-Paul Sartre aborda o tema em discussões sobre o "objeto intencional" e a constituição da consciência, com comparações sobre como a alucinação difere da percepção sobre o ‘real’.


O fato é que, ao abrir o disco com a frase “eu sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco e sem parentes importantes”, o cearense Belchior nos joga de cara contra um muro de tijolos de xenofobia recolocados e ampliados silenciosamente ao longo das últimas cinco décadas. Esse rapaz latino-americano, hoje, pode ser deportado a qualquer momento por ‘ICEs’ da vida, que sobrevivem das más alucinações de governantes (bad trips + bad trumps) e os autointitulados ‘cidadãos do bem’, vulgo neofascistas. Esse tipo de delírio coletivo faz com que pessoas rezem para pneus, conclamem ETs com celulares na cabeça, se agarrem ao para-brisa de um caminhão por quilômetros e acampem insanamente na fachada de quartéis militares por infinitas 72 horas.


Mas é neste ponto que a obra de arte em questão resiste ao tempo em um tom filosófico-profético, já que o álbum é um manifesto à insubordinação diante das regras sociais, com letras que refletem a angústia, o enfrentamento e a desobediência em tempos de censura (o último regime militar no Brasil durou de 1964 a 1985). Hoje, a censura é disfarçada pela manipulação digital, pelo consumo e a desconstrução descarada dos direitos humanos em termos globais.


Não à toa, o escritor Aldous Huxley (1894-1963, em Admirável Mundo Novo, argumentou que a ditadura perfeita seria aquela em que as pessoas "amarão a sua escravidão" e não terão consciência da sua falta de liberdade, pois estarão condicionadas a aceitá-la. O mesmo Huxley que, na década de 1950, dedicou-se ao estudo e à experimentação com substâncias alucinógenas, principalmente a mescalina, derivada do cacto peiote. Suas experiências foram documentadas em ensaios seminais que moldaram a visão ocidental sobre os psicodélicos.



Gerações


Daí, surge o clichê: uma obra que “atravessa gerações”. Lançado no auge da ditadura, o disco vendeu milhares de cópias rapidamente. Hoje, o álbum está “hypado” há uns 10 anos, consagrando novamente Belchior, agora “post-mortem”, deslocando também o sucesso para o terreno da alucinação. O álbum, produzido por Marcos Mazzola e com arranjos de José Roberto Bertrami, continua sendo um retrato contundente e duradouro da cultura brasileira, essa coisa pra lá de alucinógena, que mistura Carreta Furacão, Chacrinha, Luiz Gonzaga, Rita Lee e Heitor Villa-Lobos.

Dessa forma, a alucinação de Belchior nos joga para dentro de duas ressacas homéricas.


A primeira, em 1976, na onda de término dos Beatles e do fim do sonho de paz e amor, ocorrido sete anos antes do disco: “Minha dor é perceber / Que apesar de termos feito tudo, tudo / Tudo o que fizemos / Nós ainda somos os mesmos / E vivemos / Como nossos pais”, concluiu o cantor nos versos finais de “Como nossos pais”, regravada brilhantemente por Elis Regina.


A segunda ressaca homérica é que eles “venceram, e o sinal está fechado para nós”, que nem jovens somos mais.


Veículo para a exposição do canto torto do artista, cortante como faca, a canção “A palo seco” chega com o atualizado verso: “[...] Que esse desespero é moda em 76 [ou seria 2026?]”.


Na sequência, surge o flash identitário de “Fotografia 3x4”, na qual o cantor procurou se igualar à massa de migrantes nordestinos que se deslocavam para o Sudeste do Brasil, em rota dificultada pelo preconceito que tenta esmagar e estigmatizar o povo da região. Sim, esse preconceito ainda existe em 2026, por incrível que pareça. “Eu sou como você que me ouve agora”, reitera o cantor ao fim da canção.


“Um preto, um pobre, um estudante, uma mulher sozinha / Blue jeans e motocicletas, pessoas cinzas normais / Garotas dentro da noite, revólver, cheira a cachorro / Os humilhados do parque com os seus jornais” descreve o compositor nos versos da canção-título “Alucinação”.  


O retrato da experiência do imigrante nordestino na “cidade grande” pode ser visto hoje como a mesma experiência dos refugiados, alucinados em busca de uma vida digna e com todos os direitos respeitados. Em 2024, o número de pessoas deslocadas à força no mundo atingiu um recorde histórico, superando 120 milhões, conforme dados da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). Esse total inclui refugiados, solicitantes de asilo e pessoas deslocadas internamente devido a conflitos, perseguições e violações de direitos humanos, marcando o décimo segundo ano consecutivo de aumento global.


Em “Não Leve Flores”, Belchior nos deixa um recado atemporal sobre coisas que se passam no presente: (...) Mas eu agradeço ao tempo / O inimigo eu já conheço / Sei seu nome, sei seu rosto, residência e endereço / A voz resiste, a fala insiste, você me ouvirá / A voz resiste, a fala insiste, quem viver verá (...).


O disco “Alucinação” é contemporâneo porque expõe as vísceras do que é ser um ser humano diante de tantas distorções e injustiças existentes em diferentes épocas. Acerta o futuro, sem a promessa de mirá-lo. Recolhe os estilhaços do presente e nos mostra que o passado é nada mais que uma alucinação, dessas que nem os algoritmos são capazes de capturar [ao menos por enquanto].













Maurício Simionato é poeta e jornalista. Como poeta, lançou os livros Impermanência (2012) — selecionado pela Secretaria de Cultura de Campinas —, Sobre Auroras e Crepúsculos (Multifoco, 2017) — lançado na Bienal do Livro do Rio/2017 —, O AradO de OdarA (Uma distopia tropical) (Patuá, 2021) e as Vísceras das coisas (Patuá, 2025). Mestre em Divulgação Científica e Cultural pela Unicamp, realizou pesquisa sobre “cacos poéticos urbanos”. Com o jornalista tem passagens por diversos veículos de imprensa nacionais e foi correspondente na Amazônia por três anos. O autor também tem poemas publicados em diversas revistas especializadas em literatura, assim como em mais de 15 antologias poéticas. Foi três vezes finalista do Prêmio Off Flip (2020, 2021 e 2023) e, ainda, finalista do Prêmio Guarulhos de Literatura (2019).

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