Palimpsesto
- URRO

- 23 de abr.
- 12 min de leitura
Atualizado: 27 de abr.
O silêncio que grita ao coração do mundo
Por Celio Turino
A Cultura de Paz nasce no instante em que o outro deixa de ser ameaça e se revela encontro. Não é silêncio imposto, mas escuta profunda, quase ausculta, dessas que se ouve coração para transformar a palavra em ponte e o gesto em vínculo. Em um mundo atravessado por guerras, expansões imperialistas, ataques sobre povos e nações e violências cotidianas disseminadas, a paz se afirma como prática insurgente, como exercício de diálogo, justiça e cuidado, gesto miúdo que reorganiza o mundo.
Essa cultura enfrenta, sem desvio, as violências estruturais e simbólicas que se infiltram na vida, o racismo, a violência contra as mulheres, a cultura do estupro, as pedagogias do ódio, que se espraiam e buscam capturar as juventudes, principalmente meninos, através de movimentos como “red pill”, o bullying, a banalização da desigualdade. A Cultura de Paz é, assim, escolha ética e ato político: recusa da barbárie naturalizada e afirmação radical da dignidade humana.
A paz começa no território íntimo e se expande como onda: do corpo ao mundo, do eu ao nós, do humano à Terra. Inspirada nas filosofias do Bem Viver e no Ubuntu “eu sou porque nós somos”, ela se tece na comunhão, no reconhecimento e na reconciliação. Não há paz sem harmonia com a natureza, sem comunicação não violenta, nem sem o enfrentamento às injustiças que alimentam a violência. Paz não é ausência de conflito; é a capacidade de transformá-lo em caminho.
A arte é idioma primeiro para a paz. Ela transfigura dor em criação, medo em encontro, diferença em convivência. Ao mobilizar corpos, vozes e territórios, inaugura frestas onde o mundo pode recomeçar, produzindo pertencimento e sentido coletivo.
O Festival Artes pela Paz se afirma como expressão viva dessa utopia praticável: não promessa distante, mas convocação presente, para desarmar violências, reinventar relações e semear, com as mãos no agora, um mundo mais justo, sensível e solidário.
Festival Artes pela Paz
Idealizado no âmbito do Instituto Casa Comum (ICC), com apoio institucional do Ministério da Cultura do Governo Federal e da Prefeitura Municipal de Campinas, o festival mobiliza artistas e agentes culturais em uma grande celebração da cultura como caminho de transformação, reunindo mais de duzentos artistas participantes. Mais que um evento, o festival é um convite a reconhecer a humanidade comum e a tecer a paz no presente. Afirma que a Cultura de Paz não nasce de imposições, mas de gestos cotidianos, sensíveis e coletivos, como quem cultiva, no agora, um mundo possível.
O Festival Artes pela Paz nasce como expressão de uma utopia construída coletivamente, reunindo trajetórias da Cultura Viva, de pessoas comprometidas com a paz, a justiça e o respeito ao outro, em diálogo com saberes ancestrais e a relação com a natureza. Luiza Erundina, a guerreira pacifista, deputada federal, destinou uma emenda parlamentar para transformar o sonho em realidade. A Prefeitura da cidade de Campinas, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, abraçou a ideia, também as secretarias de Gestão de Pessoas e Educação. E veio o espaço do Centro de Convivência Cultural de Campinas, com o Teatro de Arena Tereza Aguiar, Galerias, Teatro Interno. E artistas, e gente criativa. Já são mais de cem!
Quiçá esse será o primeiro Festival Artes pela Paz. Que venham os próximos anos e novos festivais e criações. Unindo gente, tecendo a paz.

Apresentação da bailarina Diana Ichimaru. Foto:Ricardo Lima
Programação
A programa começa com um Concerto Sinfônico pela Paz com apresentação solo autoral da bailarina Diane Ichimaru, da Confraria da Dança. A Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas irá se apresentar sob a regência do maestro convidado, Nelson Ayres.
Em seguida, a Revoada de Poemas, que publicamos abaixo. Sob produção da poeta Katia Marchese foram convidados vinte e dois poetas, expressando a maior diversidade em abordagens, referências e estéticas; cada qual escrevendo poemas originais em temática da paz. Os poemas serão distribuídos ao público ao final do concerto.
Ao longo de dois meses, seguem ainda uma Exposição de Artes visuais, com artistas locais, entre sêniores, artistas jovens e coletivos, igualmente foram convidados para produzirem e apresentarem obras e instalações, projeto de Expografia a cargo do cenógrafo Elias Abraham da Buenos Cenários, além de módulos expositivos e oficinas de arte.

Poetas pela paz: diversidades e estéticas contemporânea. Foto: Ricardo Lima
Revoada de Poemas
Território comum
(Armando Martinelli)
Distâncias que se alongam
Novas esquinas avistadas
Persianas entreabertas
Letreiros ilegíveis
Palavras rasuradas
um recado não ouvido
encontros adiados
a vida em desvio
Pontes e oceanos
Passagens que religam
Ódio e indiferença
Seres que desaparecem
O cão lambe o estrangeiro
Dá as boas-vindas
Entre a língua e a pele
Um território comum
Um momento de paz
Sementes
(Karen Kazue Kawana)
Tem gente que deixa aqui
sementes feitas da própria carne.
Tem gente que deixa aqui
sementes feitas de cores, sons e palavras.
Duas formas de criar,
complementares.
Constante germinar.
***
Sementes
O que deixaremos aqui quando nos formos?
Alguns objetos e seres que um dia amamos.
Em algumas pessoas, deixaremos lembranças,
mesmo que as nossas adormeçam conosco.
Enfim, muito pouco.
Deixemos então sementes
feitas de cores, sons e palavras.
Talvez elas um dia germinem
e retornemos de outras formas.
repetir o gesto – fragmento dos dias
(tina zani)
pegadas de pó no vermelho do chão
manhã de chão
de manhã
quem pisou nesse chão
quem aguou o cimento
na hora estreita em que o sol
carimbou o vento ¾ dobrou a página
pra lembrar
pra não deixar
nunca
de lembrar
repetir o gesto
dar dimensão ao que está no ar
a mesma mão segurando
a concha
a flor a pedra
o nada
tem coisas que não são pra ficar no papel
amor que não se vive em palavras
o carinho
suave
na nuca no cabelo da nuca
o olhar que é cúmplice o tocar
as mãos
o que a gente sente falta quando falta? essa é a pergunta que aponta o que importa
a imensidão da mansidão
o miudinho
o sorriso cheio de dentes
a distração a risada por nada que se saiba a pimenta no prato a conversa partilhada junto o cheiro do corpo a alpargata furada os cabelos a barba os óculos embaçados as roupas as saias emprestadas as leituras
mas não só
as mensagens amorosas o mams o mamis a fome o charminho o drama o chilique o quarto esterilizado o banho no mesmo horário
o prato lotado e caindo pelas beiradas as poses na frente do espelho o olhinho puxado pros lados preto preto a alegria gostosa das manhãs
o amor que não se vive em palavras
à porta depois de uma noite maldormida
o amor saltitante e alegre
choroso
pedindo comida
querendo ser olhado
precisando ser visto
a generosidade a força o trabalho a esperança a coragem a persistência
a generosidade a vontade de ajudar a vontade de dar certo
a generosidade
sensação de que se não é assim
é de outro jeito
sensação
crua
de que o dia em que não é assim
é de outro jeito.
(para escrever o amarelo os ipês soltam suas folhas
eu disse que eles ficam exuberantes
exuberantes? ele repetiu
qual foi mesmo a palavra que você usou
os ipês soltam suas folhas e ficam
exuberantes).
Quisera Eu, Mulher Preta
(Dandewara Pereira)
Quisera eu, mulher preta, gorda, periférica, poder apenas olhar o mundo e respirar alívio. Quisera eu buscar a paz sem carregar fardos que não nasceram em mim, mas me foram impostos. Não falo só da paz escrita nos livros, falo da paz que ainda construo dentro de mim. Da paz que tenta florescer por fora, mesmo quando a vida insiste em me ferir. Quero a paz que me acolhe num colo quente, onde meu corpo é aceito sem condições. Quero a paz que me revolta na ausência de cuidado, quando meu grito vira número esquecido. Quero a paz que me entristece quando duvidam da minha capacidade. Mas também celebro a paz que me envolve quando alguém me ama de verdade. Quisera eu que essa paz fosse simples, mas ela é luta, é voz, é sobrevivência. E ainda assim, sigo inteira, semeando paz onde um dia negaram minha existência.
Novela
(Vida do Valle Canova)
I.
Estou no exato limiar da porta e seu batente amontoado de ovos agitados me emoldura. Como parte do cenário, solicito o som necessário para me tranquilizar ainda mais, o que sobraria se assobiassem anéis de peso infinito e não enumerável quando pudessem ser arrastados com distração. Dentro, o chumbo depositado de forma cuidadosa nos ovos vende quase gratuitamente sua capacidade sonora inigualável e funde-se instantaneamente, líquido e fiel por não ter hesitado em se registrar em momento algum. Os ovos, fumegantes, então, não tremem mas sabem que só podem ser vistos tremendo. O resto é impossível. O calor do chumbo se encarrega do rastro do ovo e não do ovo: é quando os pássaros começam a tropeçar fora das cascas. Realizo o que é fundamental sem ser uma tarefa. Assim, me aproximo e é como se avistasse uma pomba bebendo água. Não me deixo seduzir pelo êxito técnico. Não interpreto o desapego ao completo, o remetente não se deixa impressionar. Colo minha córnea na córnea da pomba e ela não foge. Não há por que interromper o fluxo de água: a poça é finita e eu sou infinita, mas não há nenhuma exigência a que minha parte corresponda: somos, então, ambas finitas. Como percebi, há o miolo violeta do pão que se pode comer dias antes de qualquer apetite. A satisfação pode aparecer mas é incerta, mesmo com a ausência longamente evidenciada do miolo. Consegue-se a consciência, que é o pavio que não pode sofrer ação de fogo algum. O fogo é o prazer, mais variado que qualquer consciência mas sem outra tarefa a não ser consumir a consciência. Tem-se, assim, a paz e o trabalho. A paz é o movimento sem ouvidos, e o trabalho grita para a paz. Todos agindo e o conflito é a sobredeterminação do todos agindo, uma protuberância que só cresce sem contato com a superfície. Agir multiplicado pelo agir. Essa seria a mina da qual extraem os pontos não comunicáveis, e o alinhamento desses pontos não comunicáveis em tendões temporários é propriamente o trabalho. Se comunicar só é suportável por um segundo. A paz tem tudo de efetivo, cabe ao trabalho se contradizer.
II.
Meu pai diagonal, um retângulo tinge-se desajeitadamente entre nós como se estivesse rasgado. Nós somos as cores bem posicionadas. Nele, há uma questão de entesouramento do amor. O roubo passa sempre despercebido e qualquer explicação que se possa dar é sempre afirmativa. O sinal indica sempre que houve e a movimentação fantasticamente emaranhada atrás dos sinais não pode ser nunca uma dúvida. A decisão deve ser unânime: não houve sinais, o mundo foi feito de outro modo. Não pode haver objetivo, mas há certeza. Meu pai e minhas tias não se reposicionam mas eu disparo evidentemente em chamas como uma coluna que dá a volta em si mesma. Não precisa haver qualquer aspereza para as ventosas do meu avô em paralelo. O esforço exige que a linha desapareça, mas a negociação sugere que se aponte uma única vez o começo. Meu avô é o céu. O livro vem rodopiando pelos ares. Eu compreendi o que a literatura poderia ser e isso me restituiu a vida duplicada como programa de ação, a minha proposta prometida de enjoo do odor das profundezas. O livro é um catálogo de exposição. Meu pai admite: sempre quis mais do que eu um Deus que opera milagres e não queria que seu pai fosse um pai para mim. Estou voltando e estou com medo.
—
(Rodolfo Hipólito)
sou um lugar de sentir
pacificamente humano
digo coisas que não sei dizer
quando fico quieto
ainda me pergunto
o que é esse caos em mim
escuto as bombas caindo
encaro as vergonhas do mundo
tropeço consistentemente
me falta o ar
de todas as perguntas que não consigo responder
observar
conseguir observar
o abrir dos olhos
o ordinário
a preguiça de um animal repousado no tapete
não posso ter paz enquanto a paz não vem de dentro
o tempo entre os espaços
devorando as bordas
tudo o que fiz eu fiz junto
escolher a ternura
mesmo quando não quero
mesmo quando não consigo
escolher sobreviver
sempre
e florescer
às vezes
(…)
(rafa carvalho)
e todo mundo vai sorrir
sorrir
quando da cultura
em cada cabeça
a única coisa
a com
–fluir
(do céu)
nos for – quem esperaria?
assim como esta:
alguma poesia
O que resta
(Katia Marchese)
Assentar a asa
errante da paz
no chão da cidade.
Voar no sopro
de um verso-ave
a finitude que rasga,
por dentro, a carne humana.
Eu, sozinha com um outro morto, recolho o poema.
O que resta
Assentar a asa
errante da paz
no chão da cidade.
Voar no sopro
de um verso-ave
a finitude que rasga,
por dentro, a carne humana.
Eu, sozinha com um outro morto,
recolho o poema.
—
(Marina Grandolpho)
ela não invade
o coração quando
pensamento lá
fora
contudo quem sabe
pássaro branco
invasão carregando
a mensagem quando
há sonho aqui
dentro
—
(Coletivo Literário Dandara Somos Poesia - Maria Deilza do Nascimento, Neuza Vieira, Raquel Siqueira da Silva e Vera Lúcia Franco Evangelista)
O planeta e o meu destino:
No banquete da fome,
Anjo ou Demônio?
O avesso no avesso,
na doçura da bala de fogo
corpo em tormenta.
As que caíram ao chão, poderão ecoar.
Pés caminham sem raízes,
destino da alma cicatrizes.
A paz se perde no poema,
tatuado na pele do poeta.
Flores de Maria
(Coletivo Literário Cora Coralina - Alessandra Yara de G. Sanches, Alexandra Lopes, Antônia Remédio, Cléo Dias, Luciana da Cunha Santos, Maria Alice Santana, Mariângela Almeida Teixeira e Sandra de Souza)
Na cidade de Campinas
pessoas mansas pessoas sem paz,
o branco envelhece o sossego,
o medo transcende o coração.
Meus olhos entre olhares,
mundo sem vidência.
A roupa que agasalha,
não traz fartura necessária.
Na pequena flor da paz, o feminicídio.
Os soluços cabem em outras vozes?
Andar e cantar com o esqueleto.
Como explodir a pedreira?
Paz é Verbo
Paz é verbo, disse a poeta.É caligrafia da vontade;Verbo que inquieta;A lâmina da verdade.
Paz não é adjetivo
Nem herança.
É verbo transitivo;
É aliança.
Paz é objetivo
Não é algoritmo;
É decisão
E construção.
Há quem morra pela paz
E há quem viva sem ela.
Aprenda a conjugá-la:
Não há beleza como a dela.
Não se sabe quem inventou o vazio
(Diego Pansani)
Não se sabe quem inventou o vazio. Mas quem inventou a representação do vazio foram os maias. E os indianos colocaram o vazio dentro da aritmética. No Marco Zero da cidade, Carlos rege petrificado diante dos fatos: último bastião da escravidão, a primeira igreja matriz. O primeiro cemitério. Hoje, ali onde todos bebem, metade da população era torturada, e Carlos regia. Hoje, ali onde todos bebem, Elesbão tinha sido enforcado diante de um público formado por fiéis que rezavam na Basílica de Nossa Senhora do Carmo e por fiéis que apostavam nos cavalos do Jockey Club Campineiro, e Carlos regia. Mais tarde vieram os jardins, os chafarizes, o calçamento, a iluminação pública, os industriais, os teatros, os cinemas, a tecnologia, os cafés e os bares. Veio a democracia. Veio a paz. Mas eu ainda me debato no vazio, imaginando que Carlos Gomes continua regendo a aritmética medíocre da Princesa do Oeste.
paz
(Lívia Mota)
entre dezenas de corpos enfileirados, tombados, mutilados, destroçados, aniquilados
uma mãe não encontra o nome do filho.
Revés da Paz
(Helena Betioli)
Enquanto a vida flui, um rio,
a rosa cresce inofensiva,
mas o humano floresce vil.
Polegar opositor na mão,
que Gaia deu para a criação,
instrumento da destruição.
Agora que seu lar desaba,
como pode o homem sagaz,
matar-se com voracidade,
ao invés de viver com a paz?
Chuva de Paz
(Pedro Marques)
A guerra: essa verborreia
que busca trolar a paz;
A guerra: fala muito em acordo
enquanto bomba,
tinge o branco da pomba.
A paz: sempre a nova ideia
contra a ferrugem da guerra;
A paz: demite o míssil de vácuo
já no papel,
chove versos do céu.
força
(Natália Mota)
nos últimos anos
a venda de armas
atingiu níveis recordes
nos últimos anos
todas as manhãs
alguém se levanta
passa o café
forte
enfia flores no cano
sorri a um estranho
O tempo de chegar
(Marcos Siscar)
há infinitas páginas para chegar até aqui
por imensos desertos de silêncio
oásis de silêncio miragens de silêncio
páginas são vazios que se abrem
há o preço de atravessá-las e então
vejo você de perto
como num close de cinema
a gota escorrendo pela nuca
o cabelo despenteado o capim ao fundo
lábios cheios de lábios
agora a face vista de lado
os cabelos de novo os ombros nus
o vento soprando no capim
vejo a gota de saliva no canto da boca
fundindo promessa e desejo
o músculo a gordura e a tez
há muitos desertos para chegar até você
entre este e aquele a travessia é longa
mas não importa
a vida é o tempo de chegar até aqui
A filha de Têmis
(Maurício Simionato)
Sempre diante de ti [basta escolhê-la]
Prestes a ressurgir [sustenta-a na palma da mão]
Diante das coisas terrenas [em seu tempo, voraz]
Está bem ali [nas entranhas das civilizações]
Vozes do fascismo ecoam teu nome [mas a farsa se desfaz]
A anos-luz de distância [tão perto dos corações]
Sob teus pés descalços à beira-mar [se satisfaz]
Está na risada de Irene, vivaz (filha de Têmis e Zeus)
Após a neblina que se dissipa [diante de seu olhar]
No cessar dos estrondos [a cada dia, se refaz]
Transmuta a barbárie [sem ser repressiva, aliás]
Às vezes, pode cair dos céus [tal qual poemas a rodopiar]
Cá está, a paz.
a canção do agora-ontem
(Ana Cláudia Romano Ribeiro)
nos Olhos do Salado (Nevados Ojos del Salado)
pé de moça, pé de senhora
elas vão te dar um nome
vão te fazer nascer
dona Efigênia já viu de tudo
camelo pela janela, voto pelo cabresto
pega na conta do colar
não diz nada, não desdiz
mas já disse no Monte Pelado
olhando a filha, olhando a neta
elas vão te dar um nome
vão te fazer nascer
Araci mal nasceu já voltou
o que não quer dizer
que não tenha querido e não tenha pegado
na conta do colar, sentido seu desejo
de vingar pra ver melhor
do topo da Pedra da Mina
dar um nome e apontar
e depois fazer nascer
dar um nome e apontar
e depois fazer nascer
subiu e desceu Lady Finger
não cansou ou se cansou
pé de moça, pé de senhora
murmurou cantando assim
elas vão te dar um nome
vão te fazer nascer
e sair dessa floresta
e entrar nessa floresta
fazer teto, acender fogo
ver no pouco muita coisa
foi assim que elas trocaram
de montanha e de vulcão
foi assim que desenharam
corredeira toda cantada
elas vão te dando nome
vão te fazendo nascer
elas
tão te dando nome
tão te fazendo nascer



Comentários