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Palimpsesto

  • Foto do escritor: URRO
    URRO
  • 17 de nov. de 2025
  • 2 min de leitura

Atualizado: 4 de dez. de 2025

A Carne de Gaia

Por Susana Oliveira Dias


Nesta exposição, Beá Meira exercita a arte de dar a ver aquilo que não queremos perceber: a catástrofe já está aí. Por meio de diversas técnicas, a artista nos faz mergulhar em uma experiência estética de viver em um mundo radicalmente diminuído e tóxico. Estamos diante de terríveis destruições devido às atividades humanas capitalizadas e das evidências do colapso, que são abafadas para que o progresso irrefreado persista.


Como dar atenção efetivamente à dura e criminosa realidade do garimpo, dos desmatamentos, das queimadas, das monoculturas, da exploração de combustíveis fósseis, das invasões de territórios indígenas? Dar a perceber, de modo não romantizado ou catastrofista, é a operação sensível de Beá. Esse exercício faz com que a “A Carne de Gaia” vá além de uma mera denúncia e informação. Não se trata apenas de saber mais sobre as catástrofes do nosso tempo presente – que tem sido nomeado de Antropoceno, Capitaloceno, Plantationoceno... –, mas antes de adentrar um movimento coletivo de reformular nossas sensibilidades, afetos e ações.


E essa busca não pode acontecer sem a articulação entre diferentes ontoepistemologias, diferentes modos de ser e pensar, que fazem frente ao capitalismo. Por isso, a exposição se abre ao encontro das ecofilosofias originárias com as artistas indígenas Claudia Baré, Larissa Ye’pa Tukano e Rayane Barbosa Kaingang. Em desenhos, pinturas e grafismos elas nos mostram como, para seus povos, existem muitos mundos e sociedades entre o céu e a Terra e não funcionam as separações modernas entre culturas e naturezas, humanos e ambientes, sujeitos e objetos, que nos trouxeram até os tempos atuais de deteriorização da vida.


Para as sociedades indígenas, a mãe-Terra emerge feita de emaranhados simbióticos de relações complexas multiespécies que exigem responsabilidade, cuidado e atenção, dos quais as gentes fazem parte. Claudia, Larissa e Rayane nos apresentam outros conceitos de humano e de natureza, fundamentais para aprendermos a habitar as ruínas.

Juntas, estas artistas nos fazem refletir sobre uma Terra em que tudo é vivo e imediatamente político. E um mundo todo vivo é um mundo que exige de nós a invenção de colaborações, coexistências e cocriações, ou seja, novos modos de viver, pensar e sentir que interroguem as perspectivas excludentes, financeirizadas e antropocêntricas que nos fizeram chegar até aqui.


Serviço

A programação da exposição "Gaia, Terra Viva - São Paulo é Terra Indígena" é voltada para toda a família e fica aberta para visitação até o dia 13 de dezembro de 2025, com entrada gratuita, no Instituto Pavão Cultural, aberto de quarta-feira a sábado, das 15h às 19h, na Rua Maria Tereza Dias da Silva, 708, Barão Geraldo.


 






Susana Oliveira Dias, curadora da exposição “A Carne de Gaia”, é licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal da Bahia, mestre e doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas, especialista em Jornalismo Científico pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp e com pós-doutorado em artes pela Universidade Federal do Pará (UFPA).

 

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