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Palavrório

Foto do escritor: URRO
URRO
7 de out.
2 min de leitura

Atualizado: há 2 dias

Lágrimas de goiabeira

Por Silo Sotil e Thiago de Souza


Na Capela da Santa Cruz do Fundão, o túmulo à sombra de uma árvore, revela lugar de descanso de um homem negro escravizado que, cansado dos abusos e do açoite, pediu apadrinhamento a um vizinho de seu proprietário. 


Eram passadas as primeiras décadas do século XIX.


O vizinho, interpretado como “boa gente” fingiu escutar seu suplício.


O “bom homem” prometeu-lhe acolhimento, confiando-lhe um bilhete para que fosse entregue a seu dono.

 

Mas, gato escaldado teme água fria, e por sorte ou azar, na direção da fazenda em que era cativo, encontrou um garoto saído da escola.

 

Não sabia ler e por isso, pediu que o menino lesse o bilhete.

 

O garoto atendeu sua vontade.

 

Cada palavra lida o libertava de suas ilusões.

 

O “bom” vizinho, diferente do que professou com a boca, sugeriu no papel que o preto escravizado fosse punido em dobro pelo atrevimento de pedir guarida ao vizinho de seu dono.

 

Ele agradeceu o garoto.


Seguiu pelo tempo em que durou seus pedidos de perdão ao Pai Maior.

 

Diante de uma árvore parou e encerrou suas preces.

 

Amarrou uma corda no galho mais forte.

 

Envolveu a corda em seu pescoço. 


E seguiu com o vento. 


No local de seu desencarne firmou-se uma cruz, sobre seu corpo enterrado. 


Ao lado da cruz, ergueram uma capela em sua homenagem.

 

A capela da Santa Cruz do Fundão.

 

Ocorre que ela foi derrubada e em seu lugar foi construída a igreja da Santa Cruz de São Paulo.  


E nas ruinas da sepultura, à sombra da goiabeira, que tudo aconteceu. 


O homem cujo a dor foi semente de uma igreja merecia mais do que excelências. 


E para as devidas homenagens, o que sobrou de seu túmulo seria reformado. 


Iniciada a reforma, a goiabeira não permitia o pleno acesso ao túmulo.

 

Com um golpe de facão, um galho foi cortado.

 

E do lugar do corte escorreram lágrimas.

   

Não era leite, não era seiva.

 

Eram lágrimas.

 

Um dos homens que reformavam o túmulo tinha um ferimento na mão que não cicatrizava há semanas. 


E foi justamente no corte que caíram algumas lágrimas da goiabeira.

 

No dia seguinte o homem voltou ao trabalho e mostrou aos colegas o corte fechado, como se nunca tivesse sido aberto.

 

A fama da goiabeira que chorava ultrapassou as fronteiras do Fundão.

 

Todos os enfermos da região iam buscar assistência aos pés da goiabeira, que não decepcionava. 


Chorava a cada doente que tocava seu tronco.

 

Até que uma mulher, que dizem ter sido uma vendedora de salgados, viu ali uma possibilidade de empreender um grande negócio.


E resolveu envasar as lágrimas da goiabeira, para vendê-las como poção medicinal.


Mas na primeira tentativa de extração, secou as lágrimas da goiabeira.

 

E ela nunca mais chorou. 




Silo Sotil é cantor, compositor, produtor cultural e sambista, conhecido por integrar o grupo Casa Caiada. Co-fundador do projeto “O que te assombra?”


Thiago de Souza é roteirista, compositor e idealizador do projeto "O que te assombra?"

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