Palavrório

Atualizado: há 2 dias
Lágrimas de goiabeira
Por Silo Sotil e Thiago de Souza
Na Capela da Santa Cruz do Fundão, o túmulo à sombra de uma árvore, revela lugar de descanso de um homem negro escravizado que, cansado dos abusos e do açoite, pediu apadrinhamento a um vizinho de seu proprietário.
Eram passadas as primeiras décadas do século XIX.
O vizinho, interpretado como “boa gente” fingiu escutar seu suplício.
O “bom homem” prometeu-lhe acolhimento, confiando-lhe um bilhete para que fosse entregue a seu dono.
Mas, gato escaldado teme água fria, e por sorte ou azar, na direção da fazenda em que era cativo, encontrou um garoto saído da escola.
Não sabia ler e por isso, pediu que o menino lesse o bilhete.
O garoto atendeu sua vontade.
Cada palavra lida o libertava de suas ilusões.
O “bom” vizinho, diferente do que professou com a boca, sugeriu no papel que o preto escravizado fosse punido em dobro pelo atrevimento de pedir guarida ao vizinho de seu dono.
Ele agradeceu o garoto.
Seguiu pelo tempo em que durou seus pedidos de perdão ao Pai Maior.
Diante de uma árvore parou e encerrou suas preces.
Amarrou uma corda no galho mais forte.
Envolveu a corda em seu pescoço.
E seguiu com o vento.
No local de seu desencarne firmou-se uma cruz, sobre seu corpo enterrado.
Ao lado da cruz, ergueram uma capela em sua homenagem.
A capela da Santa Cruz do Fundão.
Ocorre que ela foi derrubada e em seu lugar foi construída a igreja da Santa Cruz de São Paulo.
E nas ruinas da sepultura, à sombra da goiabeira, que tudo aconteceu.
O homem cujo a dor foi semente de uma igreja merecia mais do que excelências.
E para as devidas homenagens, o que sobrou de seu túmulo seria reformado.
Iniciada a reforma, a goiabeira não permitia o pleno acesso ao túmulo.
Com um golpe de facão, um galho foi cortado.
E do lugar do corte escorreram lágrimas.
Não era leite, não era seiva.
Eram lágrimas.
Um dos homens que reformavam o túmulo tinha um ferimento na mão que não cicatrizava há semanas.
E foi justamente no corte que caíram algumas lágrimas da goiabeira.
No dia seguinte o homem voltou ao trabalho e mostrou aos colegas o corte fechado, como se nunca tivesse sido aberto.
A fama da goiabeira que chorava ultrapassou as fronteiras do Fundão.
Todos os enfermos da região iam buscar assistência aos pés da goiabeira, que não decepcionava.
Chorava a cada doente que tocava seu tronco.
Até que uma mulher, que dizem ter sido uma vendedora de salgados, viu ali uma possibilidade de empreender um grande negócio.
E resolveu envasar as lágrimas da goiabeira, para vendê-las como poção medicinal.
Mas na primeira tentativa de extração, secou as lágrimas da goiabeira.
E ela nunca mais chorou.

Silo Sotil é cantor, compositor, produtor cultural e sambista, conhecido por integrar o grupo Casa Caiada. Co-fundador do projeto “O que te assombra?”
Thiago de Souza é roteirista, compositor e idealizador do projeto "O que te assombra?"



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