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Editatorial

Foto do escritor: URRO
URRO
há 6 dias
3 min de leitura

O ferro, a carcaça e a palavra seca



O ar que respiramos hoje tem o gosto podre de poeira, fuligem, pólvora, ferrugem e ossos moídos. O mundo, em sua vertigem covarde e suicida, escolheu novamente afiar as garras do ódio e deitar-se sem pudor na cama infecta do fascismo. Assistimos, com a garganta secando em fel, a saliva amargando a boca e os dentes trincados até o osso, as multidões anestesiadas e embrutecidas marchando como gado para o abate atrás de fantoches sangrentos. Vermes medíocres, carcaças deformadas de mofo lavado na lama e no sangue das valas comuns. Eles vendem a mutilação disfarçada de ordem, a ignorância travestida de virtude e a guerra de extermínio como única saída. O homem comum, acuado e cego pela própria insignificância, optou por abraçar o próprio carrasco, beijar a sola dos coturnos que o pisam e entregar as florestas, os rios, o ar, os lares e a própria carne ao ferro frio de uma barbárie que devora o futuro sem pedir licença.


Enquanto a extrema direita avança suas garras esqueléticas e sombrias sobre cada pedaço do globo, celebrando a tortura, a censura e a morte como troféus de uma civilização em franca decomposição, recusamo-nos a ajoelhar. Não há diálogo com o algoz. Não há conciliação com quem deseja nossa aniquilação. Não há meio-termo quando o abismo avança com dentes de aço para nos engolir vivos. Se o século presente insiste em se fechar em cercas de arame farpado, sirenes histéricas, blindados na rua e tribunais covardes, nossa resposta não será o silêncio dos cemitérios, nem a poesia frouxa, covarde e diletante que serve apenas para ornamentar a ruína ou acalentar o sono dos conformados. Nossa escrita não pede licença e não aceita rédeas: ela é uma gilete sob a língua, um choque elétrico na espinha, uma pedrada no vidro blindado do poder.


Temos diante de nós o espetáculo grotesco e obsceno da estupidez armada. Se eles ostentam fuzis, fardas, tanques, prisões, orçamentos milionários e baionetas, nós opomos a tudo isso o músculo tenso, elástico e sangrento da palavra, o ritmo frenético e incontrolável da poesia, o peito aberto para a estilha e a contagem obsessiva e diária de cada corpo tombado que jamais deixaremos a história varrer para debaixo do tapete. Carregamos no peito a febre profana, insolente e incendiária da juventude que prefere ver o mundo explodir em chamas a apodrecer na servidão voluntária. Uma febre que aprendeu no asfalto e na terra que a liberdade nunca foi pedida como esmola nos gabinetes do capital, mas tomada de assalto, à força, sem trégua e sem recuo, na trincheira do impossível.


Nossa escrita é um soco seco, contundente e esmagador no estômago da complacência. Ela nasce com a fúria das matas devastadas pela ganância dos senhores das armas e do boi, nasce com o eco surdo e ritmado das multidões que marcharam sob bombas de gás, cães de guarda e jatos d'água sem dar um único passo para trás, nasce com a sagrada e coragem de quem finca as raízes no barro, tomba varado por projéteis na lama da fronteira, mas fertiliza o chão com a própria raiva para fazer brotar a próxima tempestade. Cada voz silenciada à força, cada pele rasgada pela violência do Estado, cada líder tombado na poeira não é motivo para o pranto passivo da derrota: é combustível de alta voltagem para o nosso ódio de classe, uma declaração de guerra total contra tudo o que nos amordaça e oprime.


O cenário é desolador e sem espaço para ilusões infantis. O horizonte está sepultado sob uma névoa espessa de fumaça preta e o cheiro de carne queimada se alsatra por todas as esquinas do planeta. Não nos enganamos com promessas de dias floridos, reformas superficiais ou salvações divinas. O pessimismo da nossa razão é absoluto, desprovido de anestesia e cortante como um bisturi sobre a ferida exposta. No entanto, esse mesmo pessimismo jamais paralisou, e jamais paralisará a violência vital do nosso agir. Acreditamos na beleza afiada de versos que cortam a carne do tirano mais fundo, mais doloroso e mais definitivo do que qualquer lâmina de aço.


Se o mundo escolheu a escuridão dos mausoléus, faremos do nosso próprio fogo o estopim para incendiar a casa do senhor. Se eles têm as armas e o dinheiro, nós temos os a pena e a fúria da multidão. Não haverá trégua. Não haverá perdão. Não haverá esquecimento ou passo atrás. Contra a marcha obscena do ódio, o triunfalismo dos vermes e o avanço dos tiranos, erguemos nosso manifesto de fogo, nervos, dentes, suor e sangue. De cabeça erguida diante do abismo e com os punhos cerrados até rasgar a própria pele: nós estamos de pé, e estamos com a faca entre os dentes.

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