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Caligrafia

  • Foto do escritor: URRO
    URRO
  • 20 de nov. de 2025
  • 6 min de leitura

Atualizado: 1 de dez. de 2025

No bojo caipira

Por Pedro Marques


O documentário Viola Encantada (2017), dirigido por Daniel Choma, brota do seguinte mote: a viola transcende o ser instrumento musical. A viola feitiça, caixa de música-emoção, máquina de vibrar certa existência que, nela, se perpetua num instante. O que há de técnico e sagrado nesse artefato de madeira, metal, pedra e osso? Não se engane, em meia hora de prosa, esse média-metragem revela a viola enquanto vastidão cultural, estado de espírito, elo do engenho ao divino, portal de mão dupla entre o lógico e o mágico.


Por isso, para Geraldinho, basta uma batida na viola e você esquece tudo, “parece que traz outra coisa na mente da gente”. A viola, num átimo, conecta corações longínquos, a neta revivendo o avô num dueto com o pai. A viola em sons que afinam tempos distintos, braço que se espalhou pelo mundo com a colonização portuguesa, séculos antes do violão sonhar existir. A viola que cruza espaços geográficos soldando cantares, primeiro instrumento de cordas a pular de mãos em mãos brasileiras, das cidades às roças.


Do seu bojo jorra o manancial de histórias, vivências, mitologias e práticas que formam um grande acervo de narrativas, que livro nenhum conseguiria organizar. Por isso, o cateretê ou a moda de viola nunca vêm sozinho, entoados sempre abrem dentro da gente o incomensurável e atemporal arquivo oral, que às vezes se literatiza em obras como a Musa Caipira (1910) ou Grande Sertão: Veredas (1956). Um tipo de existência renasce quando o violeiro toca, acionando ramos de referências que às vezes nem sabíamos nossos.


A história de uma sensibilidade que resiste ao pragmatismo estéreo, encerrado em si mesmo, trabalho ou ganho em si. O embate arte pela vida vs. arte pelo dinheiro. A viola como vacina ao trampo quando convertido em doença. Para Henrique Netto, a viola é meio sagrada e meio espelho do violeiro, por isso “tem dia que ocê não consegue afinar a viola, aí ocê pensa que ela que tá ruim, num é, é a gente”. A viola transe para outra dimensão, ora familiar e particular, ora social.


"O Violeiro", pintura de Almeida Júnior, 1899

 

A viola como memória coletiva, inconsciente geral a chamar, convocar a pessoa ente originalmente natural, vivente comunitário sobre a terra, entre plantas, animais e paisagens, e não apenas ilha individual, um buraco, uma depressão afundada em terreno gastado. E por mais que o virtuose se materialize na dança de dedos e cordas e palavras, a viola antes de tudo é o amplificador do coração soprando por traz do bojo. É Rafael Cardoso quem poetiza: “quem toca percebendo isso, além de tá direto no próprio, tá direto no dos outros também”. 


De origem urbana, tanto em Portugal (a península ibérica é o berço das cordas dedilhadas e calculadas num braço) quanto no Brasil, na Paulistânia caipira o instrumento está associado ao campo ou a sua idealização, vivida ou não. O Brasil, nesse sentido, é o maior desenvolvedor da viola, das suas morfologias as suas mais de vinte afinações, a partir das nove que começaram a chegar no século XVI. Já diz o título do livro do violeiro-pesquisador Ivan Vilela, há toda uma História e Cultura no Som da Viola: ensaios e relatos sobre cultura popular (2024),


Quando falamos de uma expressão raiz, singela, simples, do que falamos? Qual é a “raiz” do humano? Raiz como parte tão interna, nuclear e encoberta quanto definidora. O que a música caipira resgata na gente do ponto de vista social, religiosos, cotidiano, ecológico e até ontológico? Que tipo de harmonia entre coisas este instrumento encantado, com mais de oito séculos de desenvolvimento, ensina?


Que é isso que faz ecoar qualquer assunto de modo simples, não contrário ao complexo, mas sinônimo de uno, direto, todo, orgânico? “O toque mágico em oitavas repetidas” já instaura um clima, até que, para Ana Paula Borges, “basta um único dedinho” ali num traste, para se começar a tecer um enredo na gente que toca e escuta. “A viola e o que eu toco, emenda Ruth Rubbo, me transporta para esses lugares que eu gostaria tanto de estar e que um dia estarei”. Ou seja, a viola pode ser realismo imitativo e é imagismo aberto ao desejo.

A viola, enquanto complexo cultural, como escola comunitária, oral, analfabética, literária, generosa, informal de uma cultura chamada caipira, cuja música é parte constitutiva do universo em que desfilam os personagens de um João Guimaraes Rosa. Talvez o legado decantado da ocupação violenta promovida pelos bandeirantes, que com tanto sangue e aculturação, produziu essa resistência colateral e subversora do próprio bandeirantismo, que fez o ibérico, árabe, indígena, judeu, áfrico, italiano, todos eles caipiras ao se estabelecerem e interagirem nessa área que, partindo de São Paulo, se espalhou por Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná, Mato Grosso, Matogrosso do Sul, Goiás e partes do Tocantins e Bahia.


Um território onde muito cinema era movido a Mazzaropi. Ali onde Alexandre Rezende de Almeida ouviu e estudou A Dor da Saudade: o cancioneiro caipira de Elpídio dos Santos (2023). O ser-tão caipira! Mal raiava o dia e Tonico e Tinoco animavam as multidões, em volta do radião de pilha, ouvir o programa Na Beirada da Tuia e pegar no batente.


Por estradas palmilhadas a pé, cascos, trilhos, rodas e asas, a música caipira se espalhou na era da reprodução mecânica, pela indústria do disco, pelo rádio num país do tamanho do Brasil, até hoje desabitado em suas entranhas. Essa arte que reúne poesia, narrativa, dança, crenças e valores, fará um século de registro fonográfico em 2029. Foi ela decisiva para o sucesso de gravadoras, rádios, TVs, circos, teatros, cinemas, editoras, fábricas de instrumentos, de roupas, de ferramentas agrícolas etc. Trata-se do único gênero popular que jamais saiu de cena, desde que foi organizado como produto por Cornélio Pires em 1929. Resistiu até a mudança de seu epicentro comercial, que foi a cidade de São Paulo e hoje é Goiânia.


Mas sem uma cultura parruda, que se altera sem perder o essencial, sem milhões de gentes conduzindo esse andor de graça, o jequitibá centenário tombaria. São anônimos como Toni Estrada que sabem o valor simbólico da coisa: “a viola ajuda nessa parte, financeira não, financeira não, mas nessa parte sim, na parte moral ajuda bastante, faz amigo, ajuda a fazer amigo”.


A mística da viola pulsa entre o religioso e o demoníaco, o engraçado e o sério. É Luiz Carlos Garcia rindo mareado: “eu tenho mais ciúme da minha viola que da mué dos otro, né?” A proteção de Deus, o trato com a natureza (o guizo de cascavel, a cobra nos dedos), o pacto com o Cramulhão (a encruzilhada e a venda da alma) moram no imaginário de quem participa da cultura caipira. Num ambiente em que a música é folga e divertimento, ou seja, não é profissão nem especialidade, a viola é o desafogo da labuta de quem não pode gozar da disciplinada cultura erudita, da performance do salão. É natural, nesse sentido, haver lendas que expliquem o ato quase milagroso de um homem bruto (a mão calosa capaz de tirar sons delicados) tocar bem.


Diferente de hoje, que o sujeito pode estudar viola em conservatório, como o pianista sempre fez. Esse conflito de geração aparece no documentário. Mas para José Felix, com crendice ou dificuldade, “o que influencia é o cara gostar e exercitar, né?” E, por garantia, levar um guizo no buxo da viola, vai saber...


E a violeira surge como a grande novidade do século XXI. A mulher deixa de ser tema para se tornar piloteira da viola. Inezita Barroso e Helena Meireles não são mais exceções a confirmar a regra do macho rasqueando as dez cordas. O caipira como modo de ser no mundo. “Eu não sinto, eu sou caipira”, arremata Cidão da Viola. O resgate do que se perde em cidades desumanizadas e aculturadas. A tradição em movimento gera o novo. Um ritmo de vida, de absorção, o conhecimento que não quer se impor de hegemônico, que não coloniza ninguém e sabe abrir picadas. O resgate não do velho, do morto, do que ficou, mas do ser gente com interior cultivado no bem comum, daquilo que continua, do mineral dentro da gente que chegou, que veio até nós e segue, simplesmente, em lapidação pela criançada de bermuda ou saia.


E o Daniel Choma, citado só na primeira linha? Pois, já o estilo entre ritmado e paratático da crônica imita o seu jeito de olhar e montar. Tudo nesse filme é Daniel, sem ele jamais se exibir, nem na voz em off. O calo apertando a toeira, a íris molhada, o passarinho feito trilha sonora, cada fala garimpada, isso tudo é o ouro mais fino. Ligeira que nem coice de leitoa, me acredite, a obra fica carpindo flor, flor dentro da gente por mais de ano. E, se a amiga e o amigo pegarem gosto, tem mais no site do Projeto Intergerações: Viola Paulista


Daniel fez mesmo uma série, romaria de sensações, sabedorias e artes caipiras. Vai assuntando, de graça, são doze nessa carreira: Inventorias (1), Viola Encantada (2), Alma Sonora (3), Viola de Reis (4), Encontro de Mestres (5), Drama de Palhaço (6), Introdução à Lutheria de Viola (7), Como Nascem as Toadas (8), Pacto Cobra (9), Mestre Conselheiro (10), A Música do Ser (11) e O Toque do Violeiro (12). Quer mais?



 

 

 

Pedro Marques é escritor, compositor e ensaísta. Professor de Literatura Brasileira da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Unifesp. Atua no estudo, crítica, composição e apreciação de poesia literária e vocal. Coordenador do projeto Literatura Brasileira no XXI, parceria da Unifesp com a SP Leituras. Alguns livros: Manuel Bandeira e a Música (ensaio, 2008), Clusters (poesia, 2010), Cena Absurdo (poesia e música, 2016), Encurralada (poesia, 2020), Saques & Sacanagens (ensaio poético, 2021) e Assbook (poesia, 2022).

 

 

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