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Traços Talantes

  • Foto do escritor: URRO
    URRO
  • 15 de abr.
  • 3 min de leitura

O nome que não sustenta a pedra

Por Cunhambebão Neto


No meu incansável esforço em escarafunchar as ruínas da memória campineira, deparei-me com um vulto tão insólito quanto fascinante: um fantasma!


Há, logo na entrada do Cemitério da Saudade, um monumento que insiste em organizar a morte. Colunas, nomes, datas. Uma arquitetura da memória que tenta conter o excesso como se fosse possível alinhar a guerra em mármore. Ali estão inscritos os mortos da Revolução Constitucionalista de 1932. Jovens, em sua maioria.


Alguns com sobrenomes que ainda circulam pela cidade, outros já dissolvidos no anonimato que o tempo distribui com certa indiferença. Há flores ocasionais, cerimônias em datas específicas, discursos que repetem palavras como “heroísmo”, “sacrifício” e “destino”. Há o breu no horizonte, a lembrança do cheiro de pólvora, o tempo roendo a memória quase sempre.


Mas há também uma ausência que, curiosamente, nunca foi tratada como ausência. Pelo contrário. Em arquivos dispersos, recortes mal preservados, menções laterais em crônicas da época, um rodapé sem assinatura em um jornal que não circula mais aparece o nome de Otávio Aranha do Nascimento. Jornalista de ofício, mas tratado como poeta por muito à sua época. “Agitador de ideias pacifistas”, como foi chamado em 32, Otávio sempre esteve delicada na cidade.


Pouco se sabe sobre sua obra ou vida, o que se encontra, quando se encontra, são fragmentos. Um deles, reproduzido sem fonte definida, teria sido publicado poucos dias antes de uma leva de alistamentos na cidade: “há uma pressa em morrer que não nos pertence.o tambor acelera, mas o corpo não foi consultado.”


O texto teria circulado de forma irregular, como uma espécie documento criado e distribuído na surdina, pelos cantos e vielas, tentando convencer a juventude a não aderir chamamentos pra guerra e sim para o delírio. Há quem diga que foi retirado de circulação. Há quem diga que nunca chegou a ser impresso, apenas comentado. Há ainda quem sustente que o texto é posterior, atribuído a ele por conveniência ou necessidade de construir uma dissidência tardia. 


O fato é que dias depois do documento ser lançado, Otavio foi preso. Encarcerado por defender a paz em tempos de guerra, o jornalista desapareceu no breu da dúvida que ronda a cidade: o que aconteceu com o poeta da revolução? Ninguém sabe. O fato é que seu nome, e sua figura, viraram fantasma na história da cidade e assombram a ordem estabelecida pelo canto das andorinhas.


Uma anotação encontrada em um caderno pertencente a um antigo funcionário do cemitério, relata que seus versos eram ouvidos ao pé do monumento, em alto e bom tom, durante a noite. Um vigia, já falecido, teria dito que não se tratava de assombração. “É só alguém que não foi autorizado a parar de escrever.”


Curiosamente, há uma fotografia tirado em meados dos anos 80 que mostram uma figura muito parecida a Otavio parada diante dos nomes dos jovens mortos, em posição de prece, com os punhos cerrados e os olhos mortos.


Abaixo um pequeno trecho de seu manifesto citado, a única obra que se deixou eternizar do poeta da revolução campineira.


“Chamam de dever aquilo que nasce do medo. Chamam de honra aquilo que exige silêncio.

Mas nós, que escrevemos nas margens, sabemos: há palavras que não cabem no hino.

Há uma pressa em morrer que não nos pertence. O tambor acelera, mas o corpo não foi consultado.

Nos querem marchando antes mesmo de aprender a permanecer. Nos querem alinhados antes mesmo de compreender o desalinho que é viver.

Dizem: é pela terra. Mas que terra é essa que exige filhos como adubo? Que pátria é essa que mede seu valor pela quantidade de ausências?

Eu, que escrevo de uma cidade que ainda acorda com o cheiro do café e da graxa, vejo jovens sendo chamados não pelo nome, mas pelo número. Vejo mães dobrando lençóis como quem aprende, à força, a dobrar o luto.

Não nos enganemos: o uniforme não apaga o medo, apenas o padroniza. O fuzil não dá voz, apenas silencia mais longe.

Há uma pedagogia da obediência sendo ensinada às pressas, como se o tempo fosse inimigo, como se pensar fosse deserção.

Mas desertar, talvez, seja o primeiro gesto de coragem.

Recuso. Recuso o passo que não escolhi. Recuso a guerra que não entendo. Recuso a morte que me foi designada antes mesmo de me perguntarem sobre a vida.

Se isto é crime, que seja escrito nas paredes. Se isto é traição, que seja sussurrado nas esquinas. Se isto é fraqueza, que nos falte força para continuar obedecendo.

Porque há corpos que não nasceram para o compasso da marcha. Há vidas que insistem em outro ritmo —um ritmo que não cabe no tambor, um ritmo que não se alista.

E esse, companheiros, esse é o único chamado ao qual ainda podemos responder.”

 


Cunhambebão Neto é o pseudônimo de um atento observador das artes reais e trivais da cidade.

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